por Fernando Aires

Nos tempos do papel, não tinha SEO nem técnicas de ranqueamento e as notícias “voavam” pelo mundo afora. Não havia Chat GPT. O rádio, por exemplo, tinha gente interessante, cheia de talento e curiosidade. Para ser locutor ou locutora, tinha que ter uma voz muito bonita.
Para trabalhar nos bastidores do rádio, tinha que ter agilidade, foco, buscar a notícia em primeira mão. Buscar saber. E o mesmo valia para televisão, que ainda engatinhava.
Para imprimir no papel, o jornal ou a revista que todo mundo ia pegar nas bancas (não para limpar o cocô dos cachorros) tinha que ter talento e vocação. Tinha que desejar fazer a diferença com o que se contava e claro, escrever bem.
Não havia aplicativo para “salvar” a pele de quem falasse ou escrevesse mal. Hoje, até a voz e a aparência podem ser alteradas… que mamata, em?
Antigamente, tinha que ter uma “cuca legal” (como dizia o Zé Rodrix) e saber colocar no papel as melhores histórias, tentar explicar tudo ao redor, fosse na política, nos esportes, na cultura, até no cenário mais popular, sem flertar com o sensacionalismo e o ridículo como fazem as mídias atualmente para ter mais audiência.
Ai de quem mentisse, omitisse ou aumentasse qualquer besteira…
Naquele tempo, tinha que ter a mente aberta para exercer a imparcialidade diante dos fatos, característica principal do bom jornalista.
Era importante ser isento diante das situações, para fazer uma matéria aprofundada, e não ter medo de perguntar de forma incisiva, fazendo um trabalho até muitas vezes investigativo, como o fizeram muito bem os grandes Roberto Cabrini, Elvira Lobato, Josias de Souza. Como também eram Marcelo Rezende, Gilberto Dimenstein, Ricardo Boechat, dentre muitos outros.
Coisa rara hoje em dia.
Jornalista “raiz”, não se preocupava em mostrar o que pensava, para “lacrar” com um monte de bobagens, mas sim, em mostrar a verdade por trás dos fatos, mesmo que isso fosse até perigoso. A preocupação era mostrar a verdade, era pra isso que se formava JORNALISTA.

E sim, tinha que ter fatos e argumentos para tal. Se soubesse inglês, francês, espanhol, era ótimo, mas isso não era o principal. Tinha que ler muito e gostar de fazer isso. Hoje, o jornalista tem preguiça de ler até as embalagens nos mercados.
Hoje, o jornalista tem “medo” de perder “likes”, medo de perder “seguidores”, medo de perder os segundos de fama no Instagram ou Facebook. Antigamente, o medo era morrer mesmo, perseguido por uma matéria ou reportagem, ou, com sorte, perder o emprego e ser processado, mas isso não pesava diante da vocação.
Muito mais forte que isso era a vontade de fazer o seu papel e contar o que precisava ser dito. De ir além e mostrar o que ninguém tinha coragem de contar.
Hoje, o profissional de comunicação se sente mais preocupado em usar os recursos disponíveis e a Inteligência Artificial, não para se aprimorar, mas para que ela faça o seu papel nas redações. E olhe que hoje em dia, ser jornalista é ainda mais gostoso, dadas as facilidades que existem em recursos e tecnologia.
Pesquisa, então, ficou muito melhor de se fazer e encontrar o que se quer. Só não pode ter preguiça de ler e ir atrás das fontes.
Veja bem: não se pode e nem se deve abrir mão da tecnologia, afinal, ela facilita o trabalho e a vida para todos. Contudo, se faz necessário desenvolver a inteligência humana, para que o homem saiba fazer uso desses recursos, sem abrir mão de seu próprio “cérebro”.
Precisamos voltar no tempo e reaprender a usar o nosso cérebro, para melhor explorarmos os recursos de que dispomos atualmente, para entregar um trabalho 10 vezes melhor. Sem visar apenas lucros.
Antigamente, o impresso em preto e branco já trazia muita novidade redigida por gente apaixonada em observar o mundo e contá-lo em vários leads e laudas. Eu quis ser jornalista por acompanhar – privilegiadamente – uma parte deste período e dessa geração.
Depois veio a impressão colorida, novas diagramações e claro, os formatos de papel e impressão que deixavam um jornal ou revista “deliciosamente” irresistíveis de ler e folhear.
Houve estudo, aprimoramento, empenho e claro, paixão em novamente, contar o mundo de diversas formas. Chegou a internet e com ela, um novo campo para se explorar, mas… o pessoal copiou e colou os jornais nela, em vez de produzir também para a rede.
Hoje, quase 30 anos depois, uns copiam dos outros… Nada mudou e o conteúdo ficou pequenininho diante de tantos avanços…
Antigamente, o jornalista saía da Faculdade (quando fazia uma) e partia direto pro trabalho em campo. Hoje, embora o diploma não seja mais uma exigência por culpa do ministro do STF, Gilmar Mendes, as grandes mídias exigem que o jornalista faça, além da faculdade, o curso da empresa, o “trainee”.
E para quê? Para escreverem textos confusos, equivocados, tendenciosos, quando não mentirosos?
Atualmente, boa parte do pessoal acostumado a escrever para blog, inventa “título com adjetivo e com três linhas” e até cria manual de redação que ensina essa bobagem – eu tenho um guardado. E boa parte dessa gente crê que jornalismo seja acompanhar o BBB ou fazer notinhas de eventos sociais…
Pessoal que nunca leu Guimarães Rosa ou mesmo um único conto de Machado de Assis. Que não conhece a poesia de Drummond, Andrade ou Castro Alves… Que se escuta falar de Vinícius de Moraes, com sorte, lembrar-se-á apenas da Garota de Ipanema (que a propósito, foi a Helô Pinheiro e não a Ticiane, sua filha, como muita gente pensa).
Um pessoal que nunca acompanhou um programa do Jô ou do Boris Casoy. Que nunca ouviu uma Jovem Pan ou mesmo a Bandeirantes com o famoso “O PULO DO GATO”. Para eles, o rádio toca Anita.. “Mc dá isso”, “MC daquilo”, e tome batida sem melodia no ouvido ou sertanejo para “corno”.
Um pessoal que jamais ouviu falar em Vicente Leporace e pensa que Cásper Líbero é apenas o nome de uma faculdade importante. Um pessoal que olha o Pedro Bial e lembra do BBB em vez da cobertura histórica da queda do muro de Berlim, por exemplo.
Um pessoal que passou a acompanhar a história do jornalismo a partir do que o Bonner fala ou não na bancada – acompanhado ainda da Renata Vasconcellos, em vez da Fátima Bernardes.

Outro dia, ainda me perguntaram: “Mas a Fátima é jornalista?”…
Um pessoal que decidiu ser jornalista há pouco tempo, porque gostava de usar as redes sociais… E bate no peito pra dizer que é jornalista, influencer, interessado em atrair seguidores só produzindo lixo.
Brasília, economia, esporte, mundo… é coisa chata de se acompanhar. De gente que escreve sem se preocupar com SEO da página ou com a contagem das palavras e dos caracteres.
De gente que sabe como ninguém fazer um blog de jornalismo, mas que não usa o Chat GPT, sabe? Ranquear é importante, mas produzir um conteúdo que valha a pena ler, ouvir ou assistir é 10 vezes melhor.
E sim, por mais avançado que seja, ainda não inventaram um software que substitui o cérebro. Com tanto material pobre, não me admira que logo, logo, essa tal Inteligência Artificial se canse e “bloqueie” o homem com sua estupidez.
Ai vai ser engraçado…
Fernando Aires é jornalista, publicitário, escritor e membro acadêmico da Academia de Letras do Brasil. É o editor responsável pelo Conexão Paulistana.