Como o porte de arma de pressão – chumbinho – não dá cadeia e também a polícia afirma “não ter muito o que fazer”, marginal permanece impune. A comunidade do Jd. Anália Franco se mobiliza para achar o culpado pelos tiros. Saiba mais
por Fernando Aires

Imagine que alguém resolva sair para relaxar e quando está entre os seus amigos, um tiro de chumbinho lhe atinja qualquer parte do corpo. É assustador. É assim que muitos que passam pela avenida Regente Feijó, altura do nº 644 do Jd. Anália Franco, descrevem a situação em que, do nada, um tiro pode atingir a qualquer um.
Um caso ficou conhecido recentemente: Irna Gambini, 28, moradora há anos do Jardim Anália Franco, no Tatuapé, sofreu um tiro de chumbinho que por pouco não lhe atingiu o olho esquerdo: “Eu tava num bar com meus amigos e por volta de meia noite, 1h da manhã, eu levei um tiro no rosto,só que eu achei que fosse uma pedrada. Pouco antes, um amigo sentiu algo lhe “beliscar” a perna, mas nós não pensamos na hora que se tratasse de um tiro. Quando dei por mim, vi o sangue escorrendo e entrei em pânico. Fui pro hospital e lá os médicos encontraram na tomografia a bala que estava alojada perto da órbita. Passei por cirurgia para retirada do projétil e por um milagre, eu não tive o olho estourado. Era para eu ter ficado cega desta vista”, afirma Irna.
Por pouco não perde o olho

Segundo ela, eles não estavam fazendo barulho: “Geralmente, ambiente de bar tem muita conversa, som alto, mas, naquela noite, não havia nada que fosse um absurdo e mesmo que houvesse, que chamasse a polícia. E se eu perco a minha vista, quem vai me ajudar? E se fosse uma bala de verdade, eu estaria morta. Isso é uma crueldade. Espero que a polícia localize logo o autor destes disparos”, concluiu.
O caso foi registrado no 30º Distrito Policial, no Tatuapé. Em nota, a Secretaria de Segurança Pública informou que o caso está sendo investigado. “A equipe da unidade requisitou exame ao Instituto Médico Legal (IML) para a vítima, cujo laudo foi anexado ao boletim de ocorrência. Outras diligências estão em andamento em busca de testemunhas e imagens que possam auxiliar na identificação e responsabilização do autor”.
Tiro na costela
Elias Paiva, de 56 anos, foi outro morador que recebeu também um tiro, na altura da costela. Segundo ele, a bala não penetrou o corpo, em razão de ter atingido uma carteira no bolso da jaqueta. “Eu pensei que tivesse sido alguém que, passando na rua, tivesse me arremessado algo. Porém, logo vieram me acudir, me explicando o que aconteceu e pra minha surpresa, me disseram que a situação é frequente, incluindo como vítima o dono do bar. Eu estava sossegado, após o trabalho, conversando com alguns amigos, e sempre deixo a carteira no bolso da calça. Como iria pagar a conta, naquele momento deixei “a mão”, no bolso da jaqueta. Foi a minha salvação, a bala atingiu em cheio a carteira. Estragou cartão de banco, documento, mas eu fiquei intacto. Perdi a jaqueta, mas nada sofri. Até que esse ou essa ‘psicopata’ seja preso, não volto mais lá”.
Reclamações não deram resultados

Antonio Alcantara, dono do bar, afirma que os tiros parecem vir do condomínio em frente, à rua Anália Franco, nº 30. Ele e as outras vítimas já foram reclamar com o síndico do prédio, que afirma ter instaurado uma investigação interna para apurar o caso no prédio. A polícia afirma que não há nada para fazer, visto que pela Lei, o porte de armas de pressão não é crime, e não possui as mesmas regras das armas de fogo.
Antonio já levou um tiro de raspão e teve o toldo do bar e o caminhão alvejados: “Se continuar desse jeito, eu vou ter que fechar as portas. Eu não acho isso justo. Se eu encontrar quem fez isso, eu vou processar e buscar os meus direitos”, afirma.
Pela lei, armas de chumbo só podem ser vendidas para maiores de 18 anos, sendo necessário que o comprador tenha sempre a nota fiscal da arma em mãos. Se a arma de pressão for usada em um crime, como roubo ou ameaça, o indivíduo poderá ser responsabilizado e responder pela posse da arma. Portar uma uma de chumbo em público sem autorização ou justificativa, pode implicar em enquadramento policial.
Procurada, a Subprefeitura Aricanduva, Vila Formosa e Carrão afirma que encaminhou à Secretaria de Segurança Pública o caso, solicitando maior reforço policial à área.


