por Diego Mubarack de Melo Xavier

O Brasil atravessa um momento de efervescência política e redes sociais inflamadas após o julgamento e a prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro. O fenômeno da polarização, que já vinha marcando o debate público nos últimos anos, atingiu novas proporções, transformando a mobilização digital num dos principais motores da disputa eleitoral que se desenha para 2026.

Com a condenação do ex-presidente, assistiu-se a uma intensificação dos discursos de confronto entre grupos antagônicos. Segundo levantamento da Quaest, 64% das menções nas redes sociais, na semana do julgamento, foram contrárias à prisão, evidenciando não só o poder de mobilização da base bolsonarista, mas também a força da polarização no ambiente digital. Hashtags, vídeos curtos e campanhas de compartilhamento impulsionaram uma onda de manifestações online e offline, desde twittaços até convocações para protestos nas ruas.

Ao mesmo tempo, a oposição buscou consolidar outra narrativa, associando o desfecho judicial à necessidade de fortalecimento das instituições democráticas e à responsabilização de lideranças envolvidas em atos antidemocráticos. O ambiente digital, assim, torna-se terreno fértil para confrontos e para a viralização de discursos extremos, dificultando a construção de diálogos plurais e consensuais.

O impacto da polarização se faz sentir, sobretudo, na mobilização digital. O público bolsonarista, já conhecido pelo engajamento acima da média, adotou rapidamente estratégias para manter a presença do ex-presidente no debate público, mesmo após a condenação. Grupos de WhatsApp, canais de Telegram, perfis no X (antigo Twitter), Instagram e TikTok foram usados tanto para divulgar informações alinhadas ao grupo quanto para organizar arrecadações e protestos.

O chamado “império digital” de Bolsonaro não só resistiu ao baque da decisão judicial, como também alcançou picos de interações, likes e compartilhamentos após a sentença. Essa força online é vista como elemento central de influência para as eleições presidenciais de 2026, seja para transferir capital político a aliados, seja para continuar pautando temas e o debate nacional.

Neste cenário, as campanhas buscam se adaptar a um público cada vez mais fragmentado e radicalizado. De um lado, campanhas ligadas à direita investem no sentimento de indignação, convocando seguidores para protestos e promovendo uma narrativa de resistência. Do outro, setores mais moderados e de oposição apostam em campanhas institucionais, foco no diálogo e apelos à legalidade e estabilidade democrática.

A radicalização digital também coloca desafios para quem pretende construir pontes: a lógica do “nós contra eles” limita a circulação de ideias e reduz espaços para moderação, tornando as campanhas presidenciais de 2026 especialmente imprevisíveis e dependentes dos movimentos nas redes sociais.

A polarização digital trouxe também o protagonismo de influenciadores, youtubers e líderes de comunidades online. Essas figuras, muitas vezes mais conhecidas que políticos tradicionais, têm papel fundamental na difusão de conteúdos virais, memes e hashtags de enorme alcance, moldando a percepção do eleitor e influenciando pautas do debate público. Essa mobilização é orgânica, rápida e muitas vezes difícil de ser contida mesmo por decisões judiciais ou combates à desinformação.

A atuação nas redes sociais é hoje o campo de batalha primordial da política brasileira. No caso da prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro, esse espaço digital foi não apenas palco, mas também propulsor da polarização que marca o país. O universo das redes sociais amplia a velocidade e o alcance das interações, permitindo que narrativas sejam rapidamente moldadas, contestadas e viralizadas. Contudo, essa dinâmica também fortalece a formação de bolhas, ambientes nos quais grupos compartilham visões semelhantes e se fecham para opiniões divergentes. Essa segregação contribui para a radicalização do discurso, dificultando o diálogo e a construção de consensos.

Além disso, influenciadores digitais, youtubers e líderes de comunidades online tornaram-se protagonistas, muitas vezes com mais impacto que políticos tradicionais, influenciando diretamente a agenda pública e a percepção dos eleitores. Essa “militância digital” altamente organizada e reativa faz uso constante de memes, vídeos curtos, desafios virais e campanhas de engajamento, movimentando não apenas o marco das interações online, mas também desdobramentos na política real, como manifestações e pressões institucionais.

Com as eleições presidenciais de 2026 no horizonte, esse cenário de polarização e mobilização digital promete seguir determinando as regras do jogo eleitoral. Todo movimento nas redes, desde ações coordenadas de grupos de apoiadores a campanhas institucionais de adversários, pode alterar rapidamente o posicionamento político e perfis eleitorais, criando um clima de imprevisibilidade constante. A presença consolidada de Bolsonaro no ambiente digital, mesmo após sua prisão, indica que a transferência de capital político para aliados e novos líderes seguirá sendo mediada por esses canais.

Por outro lado, campanhas de oposição também se adaptam a essa realidade, adotando estratégias que valorizam o diálogo e o fortalecimento das instituições, na tentativa de conter a radicalização. Nessa disputa acirrada, o desafio é enorme: superar o “nós contra eles”, enfrentar a fragmentação do eleitorado e tentar criar pontes em um clima marcado pela desconfiança e pelo conflito. Assim, as eleições de 2026 provavelmente não serão decididas apenas nas urnas ou nos discursos tradicionais, mas também nas batalhas simbólicas travadas no universo digital, onde narrativas ganham vida própria, influenciam decisões e moldam o futuro político do Brasil.

Diego Mubarack de Melo Xavier
Formado em Marketing Digital e Especialista em Marketing Político e Comunicação Eleitoral. É CEO na Agência BrAIn SM