por Sérgio Miranda

Fim de noite… mais um domingo que se despede, vencido pela saudade. E eu estou aqui, no silêncio do nosso quarto, sozinho — mas, de algum modo, acompanhado. Me perco no fundo dos seus olhos através daquela foto sua, de corpo inteiro, que escolhi para permanecer aqui, como se fosse uma janela aberta para você.
É impressionante… eu consigo sentir sua presença. Seu sorriso tão meigo parece ainda iluminar o ambiente, e seu olhar — aquele olhar que foi só meu, porque fui eu quem capturou esse instante — me atravessa a alma. Lembro perfeitamente daquele momento. Você fez aquela pose para mim, sustentou meus olhos nos seus, sorriu devagar… e deixou que seu charme e sua elegância fizessem o resto.
Era dia de festa. Íamos ser padrinhos no casamento dos nossos sobrinhos, Renan e Carol. Você estava linda… não, você estava deslumbrante. Radiante. Feliz. Viva. Minha. Tão minha.
É essa imagem que agora me faz companhia nessa madrugada silenciosa.
Enquanto te olho, uma canção toca baixinho no celular. Eu nem a conhecia antes, mas parece que foi escrita para este exato momento. Cada verso traduz a dor que carrego, essa dor que mora no fundo da minha alma desde que você partiu. A letra fala de ausência, de amor que não acaba, de um vazio que ecoa… e tudo nela tem seu nome, Evelaine.
Hoje eu juro que tentei ser forte. Tentei passar pelo domingo sem deixar a saudade me ferir outra vez. Mas ela sempre encontra um caminho até mim.
Pela manhã, fui visitar você. Levei as flores mais bonitas que encontrei. Mesmo assim, nenhuma delas chega perto da sua beleza, meu amor. Ainda assim, deixei-as ali, para colorir aquele lugar que guarda o que restou de você. Arrumei, limpei seu túmulo como sempre faço. Não sei se é certo, mas gosto de imaginar que você sorriria ao ver meu cuidado, meu carinho te alcançando de alguma forma.
Durante o dia, fui almoçar com seus pais, acompanhado do nosso neto Heitor e do nosso primogênito Felipe. Em meio à conversa, me afastei um pouco e me sentei naquele imenso quintal, cheio de plantas… e cheio de memórias. Cada canto daquele lugar tem você. É como se eu pudesse te enxergar ali — andando, sorrindo, chamando meu nome — mas quando estendo a mão… você não está.
E então quem vem me fazer companhia são as lágrimas. Elas chegam sem pedir licença, embaçam meus olhos e tornam ainda mais difícil essa busca impossível por você.
À noite, criei coragem e fui até a nossa igreja. Talvez ela já não seja mais minha, porque tenho ido tão pouco… mas ainda é nossa. Entrei em silêncio. Sentei no banco de sempre. Fiquei olhando para o altar, tentando te ver ali, cantando, regendo, sorrindo, conversando com todos como só você sabia fazer.
Saí antes que alguém viesse falar comigo. Não queria palavras. Não queria abraços. Só queria você.
Não fique brava comigo, meu amor. Eu sei que, se pudesse, você brigaria comigo por essa tristeza toda. Diria para eu ser forte, para seguir em frente, para viver.
Mas o que posso fazer, Evelaine?
Estou sem você.
Estou só.
Estou morrendo de saudade.
Sérgio Miranda é escritor e assessor na CET- Companhia de Engenharia de Trafego


