Governador do Rio Grande do Sul afirma que convergência entre lideranças do partido pode criar alternativa competitiva à polarização entre lulismo e bolsonarismo nas eleições presidenciais
por Fernando Aires

Em meio às discussões sobre o futuro político do país e às articulações internas do PSD para 2026, o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, afirma que não vê uma disputa tradicional dentro do partido, mas sim um processo de construção conjunta de protagonismo nacional. Em um debate realizado na Associação Comercial de São Paulo, o governador defendeu a formação de uma frente capaz de dialogar com eleitores fora dos pólos representados por Luiz Inácio Lula da Silva e Jair Bolsonaro, analisou o cenário eleitoral brasileiro e detalhou sua visão sobre reformas estruturais, segurança pública e o papel do Estado na economia. Segundo Leite, o Brasil precisa superar a polarização política e abrir espaço para uma agenda de longo prazo, baseada em responsabilidade fiscal, diálogo institucional e modernização das estruturas do Estado. Acompanhe!
Disputa interna no PSD: Existem divergências?
Primeiro lugar, quero dizer que a imprensa sempre me pergunta: “afinal, qual é como é que tá essa disputa dentro do PSD” e eu tento dizer para as pessoas que não há uma disputa na forma clássica como as pessoas procuram ver. Talvez se já estivéssemos no mesmo partido numa outra jornada anterior e agora fizéssemos as convenções, talvez houvesse uma disputa entre figuras que surgem de uma mesma combinação há muito tempo, mas aconteceu justamente o contrário.
Nós não estávamos na mesma agremiação e viemos para uma agremiação partidária convergindo. Isso muda toda a história, porque nós não estamos disputando protagonismo individualmente, a gente tá buscando construir conjuntamente um protagonismo cada vez maior, e com isso, a gente tem claro a ideia de que a candidatura que emergir daqui, com o apoio do presidente Gilberto Kassab, terá um grande poder de competitividade nesta eleição. Assim, eu posso dizer, tranquilamente, que convirjo com as ideias que o governador Caiado tem e também com as ideias do Governador Ratinho Jr.
Panorâma político-eleitoral
Antes de falar sobre alguma visão de Brasil, estrutural e estratégia, eu gostaria de fazer uma análise político-eleitoral sobre a minha forma de ver as pesquisas eleitorais. Na minha opinião, essas pesquisas precisam ser menos vistas agora, pela intenção de votos e mais pelo humor do eleitor. Isso porque a intenção de votos reproduz aquilo que o eleitor conhece. O eleitor conhece o nome de uma família, uma marca, conhece o atual presidente, sendo que esta será a 7ª eleição que ele disputa desde a redemocratização do país, então, é natural que eles tenham, hoje, a liderança nas pesquisas. Os eleitores não conhecem todos os candidatos que serão apresentados no processo eleitoral. E a gente vê nas pesquisas, também, que o governo atual é rejeitado e os dois principais protagonistas da eleição também são altamente rejeitados, então, há um enorme espaço, sim, para o surgimento de uma frente nova e a capacidade de conversar com os eleitores.
As pesquisas dizem, por exemplo, que 17% é da “Esquerda Lulista” e outros 15 a 17% são da “Direita Bolsonarista”, depois, você tem uma “Esquerda Não Lulista” e uma “Direita Não Bolsonarista” e o Centro, e é possível conversar com a “Esquerda Não Lulista” e a “Direita Não Bolsonarista” ao mesmo tempo, porque ao contrário de um passado, essa convenção de Esquerda, Direita, a partir de uma visão do papel do Estado na economia, se mais estatizante ou menos estatizante, na verdade o que coloca os eleitores mais para um lado ou para outro, são determinadas causas, são determinadas “bandeiras” que não são inconciliáveis, pelo contrário. Eu vejo que na “Esquerda Não Lulista” existe uma legítima preocupação social com a cultura, com o respeito às diversidades, com a inclusão, e isso não representa obstáculos à “Direita Não Bolsonarista”, que por sua vez, se preocupa com questões firmes de segurança pública, um Estado mais enxuto, menos corrupto, com mais respeito ao empreendedor. Portanto, essas preocupações, bandeiras, causas, não são inconciliáveis.
Reformas políticas
Eu acredito em um Estado que seja justamente menos gastador para dentro da máquina pública, portanto, aí vem tudo aquilo que está conversando sobre reformas estruturantes, fundamentais para dar espaço, para que a despesa estatal, o orçamento público, esteja direcionado às políticas que vão promover igualdade, inclusão e viabilizar investimentos em infraestrutura e tudo aquilo que é estratégico para o nosso crescimento econômico.
Então, é importante destacar, que quando a gente fala sobre reformas – e o Brasil precisa muito de reformas – a gente tá vendo a despesa obrigatória, a absoluta rigidez orçamentária com que o país tem de lidar, e que estão nos relatórios do próprio Governo, como tem destacado o Ministério do Planejamento que aponta que já em 2027/2028, nós teremos quase que incapacidade de financiar aquilo que hoje é classificado como “despesas discricionárias”. Então, nós vamos fazer reformas muito duras, a verdade é essa, né? Conquistar a própria previdência novamente, entre outras coisas que reduzam essas despesas, não apenas para termos um Estado simplesmente menor, mas para que o Estado esteja efetivamente a serviço das pessoas, outra vez.
E aí eu trago um exemplo do Rio Grande do Sul, quis o destino que a minha jornada política à frente do Estado, tivesse me colocado à prova para enfrentar desafios enormes. Assim, eu assumi um governo que tinha 80% da sua receita corrente líquida comprometida com a despesa bruta da folha de pagamento. Ou seja, o Governo não conseguia pagar os salários. Foram quase cinco anos, 57 meses consecutivos. Chegava no dia do pagamento, o Governo pagava R$ 100,00 para os servidores; mas cinco dias, pagava outros R$ 500,00; mais 10 dias, pagava outros R$ 1.000,00, até concluir uma folha de pagamento levava 40 dias e quando chegava a vez de pagar a outra, a anterior ainda não estava completa.
Tivemos que fazer, portanto, reformas muito duras, privatizações de empresas que eram “tabus” para o Estado. Há décadas, o Estado sabia que precisava privatizar estatais, mas não conseguia fazer, justamente, porque os pontos de vista na sociedade não convergiam politicamente nesse sentido. Era muito difícil promover esse debate em um Estado que é também conhecido pela polarização política histórica. Se o Brasil é polarizado, hoje, o Rio Grande do Sul é polarizado desde sempre! Então, era especialmente difícil fazer essas reformas muito duras e antipáticas, amargas, num contexto político absurdamente adverso.
E aí é por isso que não basta ter agenda correta do ponto de vista da gestão, que se sabe deve ser feita, mas quanto mais ousado o governo quer ser, do ponto de vista de gestão administrativa, quanto mais ele quer romper laços, paradigmas, mais política precisa fazer. Eu digo isso, porque prepondera, até pouco tempo, no cenário político, do ponto de vista dos sucessivos escândalos que se observaram – e mais uma vez estamos diante de um deles, uma propaganda de que o governante deve ser gestor-não político, e eu sempre refutei isso, porque não há como separar gestão de política, quanto mais gestão o governo quiser promover, mais política deverá fazer. Justamente, porque vai sair da zona de conforto, então mais política será necessário para abrir espaço, para o governo ousar do ponto de vista da gestão.
Como fazer as reformas?
Agora, essa política tem que ser feita não na forma de uma cooptação, mas sim, na forma de diálogo intenso e convencimento. E foi assim que nós fizemos, eu como Governador, logo depois de eleito, fui a cada uma das bancadas na Assembleia Legislativa, inclusive às da oposição, conversar com as lideranças, ouvir suas queixas e buscar também o seu apoio aos projetos de interesse do Estado – respeitando-os mesmo que não quisessem apoiá-los. A minha expectativa era criar um ambiente político saudável, que permitisse que a gente levasse aquelas discussões a um debate, mesmo com eles sinalizando contrariamente, mas sem as “manobras protelatórias”, reduzindo a chance de “caos” que impedisse os projetos importantes de avançarem, para que o Estado voltasse a crescer.
E nós conseguimos. Aprovamos no primeiro ano de governo, as reformas mais impactantes, como a privatização da Cia de energia, da Cia de gás, a Cia de Saneamento do Estado, reformamos as carreiras de professores, dos policiais civis e militares, e fizemos ainda emendas à Constituição que colocaram regras que precisam ser observadas por todos os Poderes nos estatutos de seus servidores, como por exemplo a retirada de anuênios, biênios, triênios, com direito à proibição. O resultado é que nós conseguimos reduzir a despesa com a folha de pagamento de 80% para 60% da receita corrente líquida e aí, os salários ficaram em dia nas folhas de pagamento, a quitação das dívidas foram resolvidas e abrimos espaço para investimentos aí, que antes eram de 2% da receita corrente de investimento, para 10% da receita corrente de investimentos.
O Estado conseguiu ainda reduzir o ICMS, que estava majorado por conta da crise para um menor patamar do Brasil, 17%, e tem todas as contas em dia e ainda criou um programa de cashback, de devolução do imposto às famílias de baixa renda. São 600 mil famílias de baixa renda cadastradas no Rio Grande do Sul e que recebem de volta o imposto que pagam. Já foi 1 bilhão e 200 milhões de reais devolvidos para as famílias, na forma de um cartão, e o que essas famílias fazem? Elas consomem! Esse dinheiro tem capacidade de armazenamento na poupança e naturalmente, esse dinheiro vai diretamente para o comércio em consumo, melhorando a economia do Sul, que pela primeira vez, tem o menor índice de extrema pobreza do Brasil.
Estado deve se afastar mais do mercado?
As reformas estruturais, é muito importante a gente mencionar isso, não significa menos Estado na economia ou no dia a dia do cidadão, ou ainda um “Estado ausente”, mas na verdade, significa um Estado que “ajusta” o seu orçamento. E é importante dizer também que ajustar é deixar “justo” o orçamento para todos, um orçamento que é “injusto”. Um orçamento capturado por determinadas camadas do serviço público, ou na forma de benefícios fiscais a setores emergentes, sem acompanhar os resultados econômicos que isso dá à sociedade e tornar o orçamento justo, para que seja destinado às famílias que realmente precisam, para que a gente consiga entregar mais qualidade de vida.
E a segurança pública?
A segurança pública no Estado do RS, que viveu os seus piores anos em 2016, 2017, 2018, tem batido recordes de segurança nos seus últimos 3 anos. O ano de 2023 foi o mais seguro já registrado, superado por 2024, e agora por 2025. E aproveito para dizer que segundo relatórios, já sabemos que os 3 primeiros meses de 2026 já apontam resultados melhores que os 3 primeiros meses de 2025. Não são apenas números, é tranquilidade nas ruas. Nós reduzimos em 80% o número de roubo aos pedestres, 90% de redução no roubo de veículos, além de outros 60% de redução no número de homicídios. E pela primeira vez, em décadas, um governo termina o mandato com efetivo policial maior do que o que tinha recebido. Até então, todos os governos anteriores não conseguiam sequer repor os policiais que se aposentaram.
Por isso eu digo com absoluta tranquilidade, não se trata apenas de aprovar leis, é importante que haja aprovação e renovação nas normas legislativas, especialmente no que diz respeito à execução penal, mas se não houver liderança do governante, não há lei que imponha a ordem. Mais uma vez, foco em nosso exemplo: O que fez avançar a qualidade da segurança pública em nosso Estado, foi uma política baseada em dados, em vivências e uma dinâmica que envolve o próprio governador. Acompanhei reuniões municipais, visitei presídios, fiz reuniões periódicas para saber dos relatórios e informações pertinentes. Paralelo a isso, conversamos com a Polícia Federal, a Polícia Rodoviária, o que aumenta a credibilidade, a confiança e o apoio nessa imensa reforma que foi feita. Uma integração entre as forças policiais que é inédita no país.
O Brasil tem futuro?
Nós sabemos muito bem que o Brasil precisa, em todas as lideranças que possui mais principalmente, na pessoa do presidente da República, debruçar-se no orçamento e focar em resultados melhores. Um Estado gastador não pode arcar com despesas e questão tão importantes e de peso. Sabemos que essa agenda hoje não interessa ao presidente Lula nem ao Partidos dos Trabalhadores, mas para onde o Brasil está caminhando, se não corrigirmos a rota enquanto há tempo?
É preciso desburocratizar o país, é preciso investir na indústria, no comércio, na segurança, na saúde, mas sem redirecionar o orçamento, nada disso passará de promessas vazias em horário eleitoral. Na segurança pública, na Policia Federal, é preciso aumentar o contingente, por exemplo, de militares que chegam a 15 mil homens. Só no Rio Grande do Sul, temos 20 mil.
É preciso buscar apoio e convergência entre os poderes, que disputam os holofotes entre si. Acredito que mudanças no judiciário também são necessárias, o STF é uma conquista que deve coroar uma carreira jurídica brilhante e não para transformar-se em viabilizador de escritórios de advocacia nas escolas superiores. Sou a favor de um mandato de 15 anos, entre 60 e 75 anos para os ministros do STF, além da necessidade de revisão sobre as suas decisões, questões financeiras, envolvimentos e etc. E claro, o Congresso Nacional também precisa de reformas, é legítimo que os parlamentares possam indicar prioridades no orçamento, mas há desproporção que isso tem alcançado, tornando-o mais enrijecido e difícil de auxiliar o país, reforça a necessidade de reformas estruturantes urgentes.
Pensar o Brasil não visando a reeleição, porque é ingenuidade achar que vai resolver todos os problema sdo país em 4, 8 anos. Mas é necessário abrir espaço para uma agenda de reformulações e projetos, que visem um Brasil melhor para daqui 10, 20, 30 anos, sempre passando o “bastão” de um governo para o outro. É esse o legado que um governo deve deixar ao outro, a oportunidade de ousar e tentar fazer a qualidade de vida daquela população, ainda melhor.
O legado de Bolsonaro foi trazer o Lula, que estava politicamente inviabilizado, de volta. Talvez, o legado de Lula, ao insistir na agenda atual, seja trazer o outro grupo político bolsonarista de volta. E eu pergunto: Quem ganha com isso? Por que definitivamente, não está sendo o povo brasileiro.



