Governador do Paraná critica polarização ideológica, propõe foco em resultados e aponta potencial do país para ser potência global em alimentos, energia limpa e tecnologia.
por Fernando Aires

O governador do Paraná, Ratinho Júnior, afirmou durante um debate na Associação Comercial de São Paulo, que o principal desafio do Brasil não é apenas elaborar novos planos de governo, mas construir um verdadeiro “programa de geração”, capaz de orientar o desenvolvimento do país nas próximas décadas.
Para ele, o Brasil sofre com a falta de planejamento de médio e longo prazos e acaba refém de ciclos políticos curtos e de disputas ideológicas que, segundo avalia, desviam o foco das soluções práticas. Ratinho Jr. também defende que o país aproveite suas vantagens estratégicas para se tornar referência mundial na produção de alimentos, na geração de energia limpa e no armazenamento de dados, consolidando uma agenda nacional voltada ao crescimento sustentável e à prosperidade das próximas gerações. Acompanhe:
O que falta para o Brasil?
Eu penso que o Brasil, mais do que um plano de governo, neste momento, nós precisamos de um programa de geração. O Brasil, lamentavelmente, não aprendeu a planejar. Geralmente o prefeito assume, o governador assume, até mesmo o presidente da República assume, cuida dos seus 4 anos e o próximo que vier que se “lasque”.
Diferente do que faz a China, cujos programas são pensados para meio século ou muitas vezes até um século à frente, diferente do que faz os Estados Unidos e muitos países da Europa de certa forma, nós não aprendemos a planejar à curto, médio e longo prazos. Há um ditado chinês que eu gosto muito e que diz: “quem planeja tem futuro e quem não planeja tem destino incerto”. Lamentavelmente, o Brasil tem tido um destino incerto por não ter a capacidade de planejar. E dentro dessa discussão que nós estamos vivendo hoje, de ideologias, nesse cenário de polarização, mais do que discutir ideologia, eu discuto metodologia.
O que está dando certo no mundo e que nós podemos trazer para cá e implantar no país? É o que eu busco, por exemplo, como Governador do Paraná. Levar para o meu estado, tudo que vejo dando certo lá fora e que acredito, pode ser implementado por lá.
Essa é a principal discussão em vez de perder muito tempo discutindo ideologia, mas sim buscando metodologia para aquilo que deu certo lá fora e pode dar certo aqui dentro. E mais do que discutir ideologia, eu discuto valores. Eu sou a favor da liberdade de imprensa, da liberdade de expressão, sou a favor da liberdade econômica, eu defendo a propriedade privada, eu sou a favor da vida, eu defendo valores mais do que Direita, Esquerda, “para frente” ou “para trás”.
E Brasil está perdendo um grande tempo já há quase uma década – porque essa discussão não começou agora, dessa polarização. E nessa briga ideológica, boa parte dos que defendem um lado ou outro, pouco entendem o que tanto defendem e os motivos pelos quais brigam tanto. Eu penso que o PSD, seja qual for o seu candidato, pode representar uma nova maneira de se olhar o país, no qual temos que nos posicionar nesse sentido, pela defesa da nossa qualidade de vida, para aquilo que é importante e dos valores que nós defendemos e lutamos para ter.
E na economia?
O Brasil precisa, na minha avaliação, buscar também se firmar em alguns alicerces econômicos, que outros países de primeiro mundo ou aqueles países que já conseguiram ter um avanço social e um avanço econômico, muito bem fizeram.
A China, por exemplo, se transformou na “fábrica” do mundo. O mundo sabe que a China virou a fábrica do planeta todo. É muito difícil você conseguir produzir alguma coisa, que não tenha um ou outro componente que venha da China. A Alemanha, por muito tempo e ainda é, se consolidou e conseguiu ter um alicerce econômico em cima da engenharia, eles se especializaram nisso. A Coreia do Sul, que até a década de 60 era o país mais miserável do planeta, se transformou numa potência asiática com a sua base da economia em cima da tecnologia. Hoje é um grande pólo de start’ups, de inovação e assim por diante. Nós estamos vendo a Índia crescendo 7,2% por cento ao ano, tendo uma base econômica na área de tecnologia e 60% da base de biofarma do mundo é indiano. Os Estados Unidos tem a indústria bélica, o setor de serviço e o Brasil tem alguns potenciais mas nós não assumimos isso com uma base econômica. “Ah, nós somos uma grande potência no Agro” Somos. Só que nós somos ainda o produtor de commodities. Nós ainda não industrializamos esse agronegócio.
Hoje, nós dependemos do nosso agricultor que acorda às 5h da manhã, que planta sua soja, o seu milho, mas que depende da Bolsa de Chicago, se está alta ou baixa, para ele poder vender. E isso, porque não foi feito um plano de Estado, de fazer com que essa produção pudesse ser armazenada e ele pudesse vender quando o preço estivesse bom. Como foi feito nos Estados Unidos na década de 30, onde o governo americano financiou praticamente todos os agricultores para poder armazenar e vender toda essa produção num preço bom e não no preço que a Bolsa de Chicago quer.
Foi assim que eles fizeram também com o projeto de irrigação dos Estados Unidos, aonde na década de 50, em Nebraska, se fez um grande trabalho para fazer com que as lavouras dos Estados Unidos ou em especial do “Corn Belt” que é o cinturão do milho, região conhecida por ter a maior produção do mundo por hectare, eles fizeram um grande programa de irrigação, para que esses agricultores não tivessem perda de produção por causa de escassez de água.
O Brasil não se especializou nisso. Hoje, nós fazemos um “extrativismo agrícola”.
Como industrializar essas commodities e reforçar esses alicerces?
Nós temos a oportunidade de transformar o Brasil num grande supermercado do mundo, até porque o mundo precisa ampliar em 20% a sua capacidade de produção alimentícia, para conseguir dar conta do crescimento populacional nos próximos 10 anos, em curto prazo. E 80% de toda essa produção no mundo vai ser na América Latina. Desses 80%, 70% estarão no Brasil e isso sem a necessidade de desmatamento, só com as áreas que nós temos hoje.
É preciso investir mais em irrigação e pegar as áreas que estão subutilizadas e fazer com que elas passem a ser produtivas. Para tanto, temos que criar um pólo de industrialização dos alimentos, tornando o Brasil o maior supermercado do mundo.
Na questão do Petróleo, nós temos mais 150 anos de jazidas mas com essa guerra, aí, vai ficar na mão novamente dos Estados Unidos, que estão dominando contra Irã e tem Venezuela, de novo, cujo setor de petróleo é a menina dos olhos de Trump. Então, é um mercado apertado, mas que temos que nos posicionar também.
O problema de água no mundo, hoje, já tem soluções para água potável, inclusive com avançados processos de dessalinização da água do mar.
Então, o grande problema do mundo, atualmente, se chama comida e o Brasil tem a capacidade de ser o supermercado, mas para isso precisa se especializar nisso e não ficar feliz apenas vendendo soja, milho, colocando no navio e fazendo engordar os peixes, os frangos e os porcos asiáticos, porque daí eles fazem quatro, cinco, seis vezes mais dólar do que nós fizemos com a nossa produção.
Trata-se de um posicionamento de desenvolvimento econômico que nós temos que ter, e para isso, é preciso um grande planejamento do Governo Federal, para transformar o projeto em política de Estado.
A outra área é a área de energia. O Brasil pode ser “Arábia Saudita” de energia limpa, da energia renovável, da energia verde. Nós temos condições de dominar esse setor. Nós estamos vendo a grande produção de etanol de milho, em que o Brasil começa a virar uma grande potência; nós temos a possibilidade de transformar o Brasil na “Arábia Saudita” do biogás com cavaco de madeira, o subproduto da venda das usinas de etanol de milho, enfim, toda essa área é possível a gente fazer com que o Brasil se consolide e além da energia renovável, através da energia hídrica, por exemplo, que é a mais sustentável do mundo e que lamentavelmente, boa parte dos pseudos-ambientalistas que condenam o Brasil porque a energia mais limpa do mundo através da água, faz isso por causa do lobby da produção de motores às energias eólicas da Alemanha e da produção de placas solares que são fabricadas na China e na Coreia do Sul.
E além disso, nós podemos também nos transformar no “computador do mundo”. Atualmente, as empresas que mais crescem no mundo são as de tecnologia, que precisam de armazenamento de dados. Esses dados custam muito dinheiro, esses dados são valiosíssimos e todas as empresas que quiserem ter algum tipo de competitividade no planeta, terão que estar atreladas a uma empresa de tecnologia. E o armazenamento de dados é muito relacionado a geopolítica. Os dados dos Estados Unidos não podem ficar perto da China, os dados da China não podem ficar próximos aos países aliados dos Estados Unidos. A Índia, que poderia ser um grande divisor ou aproveitador desse momento, tem o Paquistão e a China como concorrentes e como inclusive adversários geopolíticos territoriais.
Qual é o país que é amigo do mundo? Que tem segurança geopolítica e energia limpa e barata, água em abundância que é aquilo que é necessário para manter todos esses armazenamento de dados? É o Brasil!
Então, nós podemos ser o “computador no mundo”, nós podemos ser a “Arábia Saudita” da energia limpa e verde e podemos ser o supermercado do mundo, mas isso só será possível com um bom planejamento, uma boa organização e é o setor público quem vai tocar isso.
E o programa de geração?
Então, eu defendo que nós temos que ter uma agenda de geração. Daqui há sete anos ou pouco menos, em 2030, nós vamos ter mais idoso do que criança até 14 anos. O Brasil não tem nenhuma agenda para terceira idade, nenhuma agenda, a ponto de, se qualquer cidadão acima de 60 anos for em qualquer instituição financeira e tentar financiar uma casa de 150 mil reais, não consegue financiamento. Morre sem ter um patrimônio.
O Brasil não se preparou para a velhice e não está preparando as gerações que estão chegando. Como é que pode, em pleno século 21, onde a maioria das profissões, das novas profissões que acontecem e estão sendo criadas ligadas à tecnologia, nós não temos no currículo escolar brasileiro, aulas de educação financeira! Nós não temos no currículo educacional brasileiro, aulas de programação, onde se paga de 7 a 15 mil reais no Brasil em média, por mês, comparado a 2.500 reais, que é o salário médio do brasileiro.
Isso é falta de planejamento!
Então, eu defendo, além dos valores que eu falei no início, que o Brasil passe a se planejar, a se organizar. Primeiro trazendo paz institucional, paz política, porque onde não tem paz não tem prosperidade. Depois, preparando um planejamento a médio e longo prazos para o país e acima de tudo, com a consciência de que, quando você ajuda uma família pequena a prosperar, você ajuda a família Brasil a crescer.
Esse é o grande objetivo que nós temos para o Brasil, junto com todo esse time, que é dar uma oportunidade de sair de uma política de “fulanizar” a pessoa tal ou o adversário tal, mas acima de tudo poder apresentar uma agenda de Brasil no futuro no Brasil forte e é isso que eu defendo e agradeço mais uma vez para aqui.



