por Pedro Hensel

A parashá Korach segundo o Livrinho Devarêcha Yair, conta detalhadamente a rebelião de Korach, primo de Moshê. Ele fez uma série de reclamações, protestando por que não era ele o Cohen Gadol/Sumo Sacerdote, uma vez que ele era o chefe da família de Kehat. Por que só Moshê e Aharon eram chefes de todo o povo? Qual a necessidade de tanta hierarquia? Todo o povo é santo, por que não podem todos ser cohanim/sacerdotes?
Moshê Rabênu/Moisés Nosso Mestre dirige-se a Korach e seus 250 seguidores e propõe que se faça um teste:todos devem oferecer a Dus o ketôret (incenso, o serviço do Santuário que Dus mais aprecia). No entanto, Moshê Rabênu/Moisés Nosso Mestre os advrte que o teste é muito perigoso, porque quem realiza o ketôret corretamente e conforme a vontade Divina continua vivo, porém quem o faz de maneira errada ou contra a vontade de Dus, morre. Esta será uma seleção automática:um permanecerá vivo, enquanto todos os outros morrerão.
Moshê convida dois dos membros do grupo, Datan e Aviram, para conversar. Além de se recusarem a comparecer, ainda o acusam, insolentemente, de tê-los tirado de uma terra maravilhosa (o Egito) para matá-los no deserto.
Moshê ora a Dus e Korach e sua família são tragados pela terra. Os 250 homens que oferecem o incenso são queimados vivos por Dus.
Após estes acontecimentos, deveria ter se tornado incontestável e claro para todos que Moshê e Aharon foram escolhidos por Dus. Mas não ficou. Sendo assim, Dus ordena que Moshê pegue as pás usadas pelos 250 homens e as derreta, transformando-as numa chapa para ser colocada em volta do Altar. Desta forma, todos que a virem lembrarão do que acontece com quem critica a posição do Cohen Gadol.
E agora, será que se deram por encerradas as reclamações? Não! O povo veio queixar-se a Moshê e Aharon, alegando que eles mataram o povo de Dus.
Naquele momento, uma peste alastrou-se no meio do povo. Moshê diz então a Aharon: “Pegue incenso, coloque numa pá e corra para o meio do povo para cessar a peste”” (Bamidbar/Números 17:11).
Rashi explica que o povo estava reclamando que o incenso é um veneno mortífero. Nadav e Avihu, filhos de Aharon/Aarão, haviam morrido ao oferecer o incenso,e agora 250 homens perderam suas vidas devido ao incenso. Moshê disse a Aharon:mostre a eles que o Ketôret não é um veneno; muito pelo contrário, é um elixir de vida capaz de cessar uma peste. O problema não é o incenso, mas aqueles que o oferecem sem que Dus tenha ordenado. É o pecado que mata, não o incenso.
Morrem 14.700 pessoas durante a peste. Mesmo assim, o povo ainda está receoso. Então, Dus ordena a Moshê que pegue o cajado de cada um dos chefes de tribo. A tribo de Levi será representada por Aharon. Dus ordena que todos os cajados sejam colocados dentro do Mishcan/Tabernáculo/Templo Portátil e, o cajado que amanhecer florido, é o cajado daquele que foi escolhido por Dus. No dia seguinte, o cajado de Aharon amanhece florido e, mais do que isso, amêndoas brotaram nele. Moshê expõem todos os cajados para que o povo constate. Cada chefe toma de volta seu próprio cajado e vai embora.
Então, Dus ordena a Moshê que guarde o cajado de Aharon, florido, como lembrança; a qualquer reivindicação, será só mostrá-lo.
Terminada a história de Korach e seus seguidores, a Torá passa a descrever- até o final da parashá- porção semanal da Torá, todos os presentes que os cohanim/sacerdores e os leviyim/levitas recebem. Como o povo questionou estes cargos, Dus fornece uma lista de presentes que lhes pertencem por direito, de forma que sejam respeitados.
A rebelião de Korach e seus seguidores foi um dos acontecimentos mais trágicos ocorridos durante a estadia do Povo Judeu no deserto. De repente, um indivíduo se levanta, reúne um grupo de seguidores e passa a questionar a liderança de Moshê e Aharon, que foram escolhidos por Dus e deram suas vidas para salvar o povo do Egito.
Moshê determina que façam um teste com o ketôret/incenso.
Trata-se de uma brincadeira extremamente perigosa, muito pior que roleta russa. Enquanto a última tem uma chance de 5 para 6- cinco pessoas permanecerão vivas e uma morrerá – no caso do ketôret, 250 pessoas morrerão e somente uma pessoa continuará viva. Como pode ser que todos aceitaram?
Rashi questiona isso: “ E Korach, que era pikêach (muito perspicaz e esperto), o que viu ele para concordar em passar por isso? Seu olho (sua previsão) o enganou, pois ele anteviu que teria uma descendência muito importante. Tratava-se do Profeta Samuel/Shemuel que no futuro seria comparado a Moshê e Aharon juntos. Por isso, Korach estava certo que nada aconteceria com ele. Todavia foram os filhos de Korach que sobreviveram por terem feito teshuvá/retorno/arrependimento no último instante, e foram eles que tiveram entre seus descendentes, o Profeta Shemuel”.
É interessante a expressão que Rashi e nossos sábios usam para definir Korach:pikêach, perspicaz. Onde está a esperteza de Korach ao longo da parashá?
Baseados no livro Kedushat Levi, de Rabi Levi Yitschak de Berditchev, podemos explicar.
Rashi, no início da parashá, elucida qual foi o motivo que levou Korach a iniciar essa contenda. Amram, pai de Moshê e Aharon, era o filho mais velho de Kehat, seguido pelo irmão Yits´har, pai de Korach. Amram e Yits´har tinham mais dois irmãos:Chevron e Uziel. Uziel, o irmão mais novo, tinha um filho chamado Elitsafan, que foi nomeado por Dus como chefe da família de Kehat.
Korach protestou:Moshê e Aharon receberam a liderança, vá lá; são descendentes de Amram, filho mais velho de Kehat. Mas por que quando surgiu um novo cargo- ser chefe da família de Kehat- ele foi dado ao filho do irmão menor? Eu sou filho do segundo irmão! Foi então que Korach decidiu se revoltar contra tudo e exigir o cargo de Aharon também.
No entanto, há algo estranho:Moshê nomeou Elitsafan ben Uziel como chefe de Kehat há cinco parashiyot atrás- na Parashá Bamidbar/Números, no mês de Iyar, durante a contagem do povo. Naquele momento, Dus escolheu os chefes da tribo de Levi e Elitsafan ben Uziel foi nomeado chefe. Daquela ocasião até Parashá Korach, passaram-se meses, nos quais uma série de coisas aconteceu: o povo queixou-se que o caminho era longo, depois reclamou da falta de carne e, como consequência, comeu carne durante um mês inteiro.
Posteriormente, Moshê mandou espiões para a Terra de Israel. Os espiões ficaram lá quarenta dias. Somente após estes acontecimentos todos é que Korach manifestou seu descontentamento. Por que ele se lembrou de reclamar do cargo que o primo menor recebeu somente agora?
A resposta é que Korach era pikêach: na parashá de Bamidbar/Números/No deserto, Moshê gozava de elevado conceito, estava em “alta”:acabara de ser o emissário de Dus para tirar o povo do Egito e dar-lhe a Torá, salvou o povo do extermínio com suas orações depois do pecado do bezerro de ouro, montou o Mishcan/Tabernáculo/Templo Portátil, foi o mensageiro de Dus para lhes prover maná e água. Não faltava nada, estava tudo maravilhoso. Se Korach se rebelasse então, não teria adeptos. Por mais que inveja é um sentimento incontrolável, ele sabia que não era o momento de reivindicar e conteve-se.
O Rambam pergunta por que Parashá Korach vem logo depois de Parashá Shelach? E responde que Korach esperou um momento de circunstância desfavorável para atacar. Após o povo reclamar que o caminho para a Terra de Israel é longo demais e ser atingido por uma peste; queixar-se da falta de carne e comer carne até morrer; cometer o pecado dos espiões, não acreditando na bondade de Dus e falando mal da Terra de Israel, ocasião na qual muitos morreram, e aos remanescentes foi decretado passar quarenta anos no deserto, até toda aquela geração morrer; somente então Korach reconheceu ser este o momento certo para estimular e fomentar uma discórdia. Agora que Moshê não contava com a simpatia do povo e estava impopular, era a circunstância propícia. Realmente, Korach conseguiu reunir um grande número de pessoas e armar uma grande confusão.
Da mesma forma, diz Rabi Shim´on ben El´ azar na Ética dos Pais (4:18): “ Não apazigue seu amigo no momento de sua ira; não o console no momento em que o falecido está perante ele…”. Não é a hora certa. São momentos de extrema tensão, dor e tristeza.
Acalmar ou consolar pode afligir e atormentar mais ainda. Isso poderia ser interpretado pela pessoa como falta de compreensão da situação em que se encontra. Não há o que dizer nessa hora. É preciso “dar um tempo” para passar aquele primeiro momento de fúria, esperar o término do sepultamento, Dus nos livre, e aí sim no instante adequado, apaziguar ou consolar.

Korach sabia que cada coisa tem seu tempo certo. Mesmo que ele tenha usado este acontecimento para o mal, nossos sábios não deixam de chamar Korach de pikêach- esperto. Está é uma lição a aprender dele:tudo na vida tem seu tempo certo. É preciso saber se controlar e esperar o momento propício para falar, agir e fazer o bem.
Pedro Augusto Franchini Hensel é bacharel em Direito e estudioso pesquisador.


