Beneficiários denunciam falta de diálogo, descaso e alegam que não foram consultados antes da mudança. Saiba mais:

por Fernando Aires

Mais de 50 aposentados da Pirelli, acompanhados por familiares, estiveram nesta terça-feira, dia 28/07, em um prédio da empresa, em São Bernardo, para cobrar explicações sobre o expressivo reajuste no convênio médico oferecido aos ex-funcionários. 

O convênio, que antes pertencia à Notre Dame, passará a ser gestado pela UNIMED.

De acordo com os aposentados, a alteração foi implementada sem consulta prévia aos beneficiários. A principal reclamação é que muitos vivem exclusivamente da aposentadoria e não possuem condições financeiras de arcar com o novo valor, sob o risco de perderem o acesso à assistência médica.

Os planos de saúde no Brasil em 2026 reajustaram cerca de 5% (individuais e familiares). Para os coletivos (empresariais e por adesão) registraram um aumento médio de 9,9%, valores bem distantes dos 200% registrados na maioria dos casos apresentados nesta reportagem.

“Meu avô pagava R$ 800,00 em duas vidas do plano de saúde e agora querem que paguemos R$ 2.300,00 e ainda com co-participação? Isso é escandaloso”, disse um neto de ex-funcionário que não quis se identificar.

Descaso com os idosos

Durante a mobilização, os participantes afirmam que buscaram abrir um canal de diálogo com representantes da empresa, mas receberam um atendimento considerado inadequado por parte do setor de Recursos Humanos. Muitos esperaram mais de 3 horas – alguns com comorbidades –, sem qualquer cuidado ou respeito pelo tempo de vida que dedicaram à empresa. 

Após longa espera, uma atendente do RH da empresa apareceu e pediu para remarcar a visita no dia 30/07, às 9h, onde deverá ouvir a todos e prestar esclarecimentos.

Segundo informações, o RH da empresa orientou ainda, aos aposentados, que manifestassem suas reclamações por e-mail, desconsiderando, por exemplo, a realidade daqueles que lidam com dificuldades no uso de ferramentas digitais.

“Um desrespeito enorme com os aposentados que tanto fizeram por eles. Não fomos bem tratados pelos profissionais da Pirelli, do RH, que ainda queriam que tivéssemos feito questionamentos por email e não de forma presencial”, desabafou Juliana, filha de um ex-funcionário.

Há casos de aposentados que pagavam por 3 vidas cerca de R$ 600,00 por mês. Com a migração para a UNIMED, a família teria de arcar com o valor de R$ 3.900,00 isso somando a co-participação. Algo muito fora da realidade da maioria dos beneficiários.

Diante da situação, aposentados, filhos e netos criaram um grupo de organização para discutir medidas jurídicas. A intenção é ingressar com uma ação coletiva para questionar o reajuste do convênio e buscar esclarecimentos sobre os critérios utilizados para a definição dos novos valores.

Ovídio, ex-funcionário, comentou: “Eu acredito que faz 30 anos que temos o nosso direito, tá certo que o plano mudou algumas vezes, não tem problema nisso, desde que se mantenha algo dentro da lei, de acordo com o que você pode pagar. Nós vamos lutar pelo que é direito nosso”.

Ponto de vista jurídico

Segundo a advogada Dra. Nildete Sousa “No plano individual ou familiar, a ANS estabelece um teto, ou seja, um limite para o aumento anual. Já para os planos coletivos não existe um teto definido para o reajuste, mas existem regras que devem ser respeitadas. E como não existe o limite de teto nos planos coletivos, a justificativa comum para um aumento tão elevado no valor da mensalidade é a sinistralidade, em razão do suposto aumento de custos com atendimento e internações dos beneficiários. Neste ponto o consumidor tem direito a ter as informações de como foi realizado o cálculo para que se chegasse ao valor do reajuste, uma vez que pode ser aplicado o CDC – “Código de Defesa do Consumidor” aos planos de saúde e seus beneficiários. Segundo o CDC, é direito do consumidor a informação adequada e clara sobre os serviços prestados, ou seja, o consumidor tem direito de ser comunicado do reajuste e compreender os motivos ensejadores deste acréscimo. A ausência dessas informações permite a propositura de ação judicial”, comentou.

Até o fechamento desta matéria, a Pirelli não havia se manifestado sobre as reclamações apresentadas pelos aposentados. O espaço permanece aberto para que a empresa apresente sua versão dos fatos e esclareça os critérios adotados para o reajuste do convênio médico.