por Sérgio Miranda

Em meio aos sentimentos que me acompanham desde que perdi você, minha amada Evelaine, e apesar da tristeza imensa que a saudade insiste em derramar sobre os meus dias, ainda consigo viajar pelas lembranças que guardo de nós — preciosidades que carrego com todo o carinho dentro do coração. Porque, mesmo distante, você continua morando em mim, meu amor.

Ontem à noite, já tarde, depois de sair do trabalho, senti um impulso impossível de ignorar. Resolvi parar no lugar onde um dia existiu a casa em que você morou com seus pais.

O terreno pertencia à Nitro Química, empresa que construiu uma vila para funcionários que exerciam funções estratégicas, como era o caso do seu pai, o Sr. Elci, mecânico de máquinas, que muitas vezes precisava ser chamado no meio da madrugada para resolver emergências na fábrica.

Digo que a casa existiu, porque, infelizmente, justamente o lado da rua onde vocês moravam — naquela vila chamada Cidade Nitro Química — foi demolido para dar lugar a uma avenida. Hoje, permanecem apenas as casas da calçada oposta, como testemunhas silenciosas de um tempo que não volta.

Já havia parado ali outras vezes, tentando ajudar minha mente a reencontrar lembranças, mas, dessa vez, foi diferente.

Fiquei um longo tempo parado naquela rua, viajando pelas recordações enquanto olhava fotografias antigas guardadas comigo. Afinal, já não tenho a mesma pressa de chegar em casa. Não quando sei que, ao abrir a porta, o silêncio me lembra ainda mais da sua ausência.

Lembrei-me de algo que você sempre dizia: que sonhava muito com aquele lugar.

E como não sonhar? Foi naquela casa que você viveu a maior parte da sua infância, adolescência e juventude. Ali, seus pais recebiam familiares vindos de perto e de longe, transformando cada encontro em uma verdadeira festa de amor e aconchego.

Depois, quando começamos a namorar, tive o privilégio de participar de alguns desses momentos.

Lembro do grande quintal nos fundos, onde seus pais plantavam milho. Na época da colheita, muitos familiares apareciam, e então suas avós — vó Helena e vó Hilda — junto com sua mãe, preparavam comidas deliciosas que reuniam todos ao redor da mesa, entre risos, histórias e afeto.

Já contei aqui que demoramos a iniciar um relacionamento sério. Mas, quando finalmente aconteceu, aos poucos fui ganhando espaço no seu mundo — e, principalmente, no seu coração.

Passei a estar sempre com você: na sala, na cozinha, no quintal e, sobretudo, naquela área da casa onde, noite após noite, ficávamos namorando.

Sobre esse lugar… e sobre certas lembranças do nosso namoro, melhor eu guardar segredo. Nem aqui, nem no livro que estou escrevendo ousarei contar tudo. Você certamente ficaria muito brava comigo — e, de alguma forma, ainda me preocupo em não te aborrecer.

Outra memória me visitou ontem.

Houve um dia em que bebi vinho demais — nem me lembro se foi com seu pai —, mas exagerei tanto que, à noite, quando chegou a hora de irmos ao culto na igreja, eu já estava passando muito mal.

Você acabou indo com sua mãe, enquanto me deixou sob os cuidados do seu pai, porque eu simplesmente não parava de passar mal, vomitando pela janela do quarto. Tenho lembranças vagas daquela noite, mas nunca esqueci a vergonha que senti.

E também nunca esqueci do cuidado dele comigo.

Um homem com quem eu ainda nem tinha tanta intimidade, mas que, naquele momento, cuidou de mim como alguém da família. Só não consigo lembrar como foi reencontrar você depois que voltou da igreja.

Ah, quantas lembranças vivem naquele lugar…

Como o dia em que tentei surpreender você no aniversário. Pedi ajuda a um amigo, fizemos uma enorme boneca — a maior que conseguimos encontrar — e a fizemos descer pelo telhado da casa, de repente, para entregar seu presente e arrancar o seu sorriso. E como eu amava ver você sorrir…

Você não está mais aqui para continuarmos a escrever nossa história de amor… mas ela ainda pulsa no meu coração, como uma chama que nem a saudade conseguiu apagar.

Minha doce Evelaine… você ainda é, e talvez sempre será, o lugar mais bonito onde minha alma aprendeu a morar.

Sérgio Miranda é escritor e assessor na CET- Companhia de Engenharia de Trafego