por Sérgio Miranda

Na busca diária que faço pelas lembranças que guardo de você, minha querida Evelaine, um dos lugares onde mais gosto de estar é a casa dos seus pais, em Poá. É como se ali, entre as paredes, o quintal e os pequenos detalhes, ainda permanecessem fragmentos da sua presença, esperando para serem encontrados por mim.
Na tarde deste domingo estive lá. Depois do almoço, sentei-me no quintal com seus pais e com nosso filho, Felipe. Enquanto eles conversavam e colocavam os assuntos em dia, eu os escutava em silêncio e, ao mesmo tempo, deixava meus olhos passearem pelos lugares que um dia foram preenchidos por você.
Essa casa guarda muitas histórias. O quintal, então, parece guardar ainda mais. Para onde olho, encontro lembranças suas: vivas, nítidas, quase palpáveis. Tão reais que, por alguns instantes, consigo acreditar que o tempo não passou.
Hoje, sentado ali, bem perto do lugar onde um dia a vi pulando corda, lembrei-me deste vídeo que compartilho na postagem de hoje. Você estava linda, Evelaine. Linda e feliz. Brincava com os sobrinhos e com o nosso neto Heitor, com a mesma espontaneidade de uma menina que reencontra a própria infância.
Naquela tarde eu não lhe disse nada, mas ver você brincar daquela forma me encantou profundamente. Não pela alegria, porque ela sempre fez parte de você, mas pela beleza de vê-la voltar, por alguns momentos, ao tempo dos seus sonhos de criança. Havia uma leveza rara naquele instante, uma pureza que tornava tudo mais bonito.
Como era bom viver ao seu lado e compartilhar momentos assim. Tão simples, e ao mesmo tempo tão preciosos. Você tinha o dom de transformar o comum em algo especial. Vivia com leveza, aproveitando cada tempo, cada lugar e cada companhia. Sabia acolher as preocupações sem permitir que elas roubassem sua paz.
Você nunca perdeu a paciência a ponto de ferir alguém, nunca alimentou conflitos desnecessários. Pelo contrário, carregava consigo um sorriso pronto, um coração sereno e uma disposição admirável para viver o presente.
Quando esse vídeo foi gravado, em 27 de setembro de 2020, você estava muito próxima de concluir o acompanhamento médico que verificava, naquela etapa final, o sucesso do tratamento contra o câncer de mama. Foram dez anos de acompanhamento, e você já estava no penúltimo ano. Em 2021 estaria livre daqueles retornos periódicos ao hospital.
Não sabíamos, mas em breve (dentro de seis meses), receberíamos a notícia que o câncer tinha voltado.
E tudo parecia bem.
A única diferença era que você estava um pouco acima do peso que costumava ter, mas isso jamais diminuiu sua beleza ou sua alegria. A vida seguia seu curso suave. Você trabalhava, dedicava-se ao ministério de música da nossa igreja e, quase todos os fins de semana, visitávamos seus pais. Você amava estar ali.
Talvez por isso este lugar fale tanto de você.
Essa sua alegria de viver, essa leveza tão sua, partiram com você naquele dia em que Deus a chamou. Desde então, só consigo reencontrá-las nas lembranças que ficaram. E, ainda assim, elas continuam sendo um dos maiores presentes que você me deixou.
O nosso neto Heitor foi privilegiado por ter convivido com você. Quando você partiu, ele tinha seis anos, e você, apenas cinquenta e cinco. Nossa neta Sofia Cristina tinha apenas três anos e morava na Austrália. A distância permitia apenas chamadas de vídeo, mas, graças às visitas que nosso filho Luiz Fernando conseguiu nos fazer, você pôde abraçá-la algumas vezes e deixar nela um pouco do seu amor.
Hoje, nossa família cresceu. Além do Heitor e da Sofia, chegaram o pequeno César, filho da nossa caçula Isabella Cristina, com seus sete meses de vida, e o Lucas, também filho do Luiz Fernando, que agora vive no sul do Chile e que acaba de completar quarenta e cinco dias.
Meu maior desejo é que cada um desses netos saiba exatamente quem foi a vovó Evelaine. Quero que conheçam seu coração generoso, sua fé, sua doçura e a maneira simples e bonita com que você viveu.
Essa se tornou uma das missões da minha vida.
Enquanto eu estiver aqui, meu amor, continuarei contando a eles sobre você. Falarei das suas virtudes, dos seus gestos, dos seus sorrisos e do amor que construímos juntos. Dividirei com eles cada lembrança que o tempo não conseguiu apagar.
Quero que eles sintam orgulho da avó que tiveram. Quero que sintam saudades daquela que alguns nem chegaram a conhecer. E, sobretudo, quero que encontrem em sua história uma inspiração para viver.
Porque, de alguma forma, minha Doce Evelaine, você continua entre nós.
Vive nas histórias que contamos, nos lugares que você amou, nos filhos que criamos, nos netos que chegaram depois da sua partida e, principalmente, no amor que continua habitando o meu coração.
Um amor que nem o tempo, nem a distância da eternidade, foram capazes de levar embora.
Sérgio Miranda é escritor e assessor na CET- Companhia de Engenharia de Trafego


