Pacientes denunciam falta de atendimento e cirurgias atrasadas; Secretaria Municipal de Saúde apresenta reforma como justificativa. Saiba mais:

por Fernando Aires

A cena que ocorre nos corredores do Hospital Municipal Dr. Cármino Caricchio, no Tatuapé, choca e revolta familiares e pacientes. Até mesmo um vídeo foi produzido e divulgado nas redes sociais, através do qual a reportagem tomou conhecimento da situação lamentável.

Idosos e pessoas com saúde fragilizada aguardam horas – e em alguns casos, dias – deitados em macas improvisadas, à espera de um atendimento médico ou de uma cirurgia que parece nunca chegar. O espaço, que deveria oferecer dignidade e cuidado, tem se transformado em um retrato do colapso na rede pública de saúde.

Cena do caos

O que se espera diante de tal situação? Ao menos, uma palavra da direção do hospital, que poderia tentar mostrar-se preocupada com o atendimento destas pessoas que tanto serviram e colaboram com a sociedade. Para quê? Para aguardarem nos corredores?

Nossa reportagem foi ao local conferir de perto. Maria Alves, filha de um dos pacientes, conversou com o repórter: “Meu pai chegou com febre alta e falta de ar. Ficou mais de oito horas no corredor até ser avaliado por um médico. Eu entendo, que a demanda é grande e talvez a equipe faça o que pode, mas poxa, cadê o governo nessas horas? Enquanto as autoridades não forem obrigadas por lei a se tratarem em hospitais públicos, a saúde pública vai continuar essa porcaria”.

Outros relatos obtidos pela reportagem descrevem longas filas formadas não apenas nas recepções, mas também dentro dos corredores, onde pacientes permanecem lado a lado, muitas vezes sem privacidade, ventilação adequada ou condições mínimas de conforto:  “Minha mãe está aqui desde ontem. Está com dor, e até agora não foi atendida pelo médico que vai fazer a cirurgia. Falam que é falta de vaga, mas a gente vê que falta é gestão”, afirma a filha de uma paciente de 74 anos, que pediu para não ser identificada.

Demora nos atendimentos

As queixas incluem demora no diagnóstico, cancelamento de procedimentos de última hora e insuficiência de profissionais para a demanda. Alguns familiares relatam que só conseguem informações sobre o estado de saúde de seus parentes após insistentes pedidos. “Meu pai tem 80 anos e está sofrendo aqui no corredor. Não é justo tratar pessoas assim, como se fossem números”, desabafa outro acompanhante.

Procurada, a direção do Hospital Dr. Cármino Caricchio recusou-se a dar qualquer explicação, alegando que o procedimento “adequado” seria entrar em contato com a Secretaria Municipal de Saúde para que eles encaminhassem a resposta.

Resposta da SMS

Pois bem, a reportagem fez conforme solicitado, encaminhou e-mail à Secretaria, que por sua vez, enviou a seguinte resposta:

“O Hospital Municipal Dr. Carmino Caricchio passa por uma reforma para ampliação da capacidade, em conjunto com outros 12 hospitais da rede municipal. A ação na íntegra, resultará em um acréscimo de 1.500 novos leitos no município. Além disso, toda a capital passa por grande ampliação de equipamentos, visando fortalecer também a rede de urgência e emergência. A gestão municipal implantou 21 novas Unidades de Pronto Atendimento nos últimos quatro anos, totalizando 34 UPAs na cidade. Até 2016, havia apenas três. Na última semana, as UPAs da Prefeitura de São Paulo receberam aprovação de 74% da população, segundo pesquisa do IPESPE”.

A Secretaria acrescenta: “O Hospital Municipal Dr. Carmino Caricchio é uma unidade terciária de referência para trauma, recebendo pacientes encaminhados por outros serviços, e não deixa nenhum paciente desassistido. São realizados cerca de 5 mil atendimentos por mês. As equipes médicas e multiprofissionais atuam de forma contínua para oferecer o melhor atendimento e agilizar a transferência para leitos assim que disponibilizados”.

Enquanto isso, o cenário no hospital segue o mesmo: macas alinhadas pelos corredores, idosos em sofrimento, e a sensação de abandono que, segundo pacientes e familiares, cresce a cada dia.