Presidente Hiroshi Uehara destaca a importância da preservação cultural e da união entre gerações na comunidade okinawana paulistana. Acompanhe:
por Fernando Aires
A Associação Okinawa de Vila Carrão, localizada na zona leste de São Paulo, é um dos pilares da preservação da cultura japonesa na capital. Fundada por imigrantes e descendentes de Okinawa, a entidade mantém viva a memória, os valores e as tradições desta rica herança por meio de atividades culturais, esportivas e sociais.

PressEm entrevista ao Jornal de Vila Carrão, o presidente Hiroshi Uehara fala sobre os desafios e conquistas da associação, o papel da juventude na continuidade desse legado e a importância da convivência comunitária como instrumento de integração e respeito às origens.

Com mais de 6 décadas de história, a Associação segue como referência na promoção da cultura okinawana, unindo gerações e fortalecendo o sentimento de pertencimento entre seus membros. Uehara compartilha ainda os projetos em andamento e as perspectivas para o futuro, em um diálogo que reflete a harmonia entre tradição e modernidade. Acompanhe:
Conexão Paulistana: Qual é a importância da Associação para a comunidade local da Vila Carrão, além da comunidade okinawana? Como ela se relaciona com o bairro mais amplo e com São Paulo?
Hiroshi Uehara: A Associação Okinawa de Vila Carrão (AOVC) é mais que um espaço de preservação da cultura okinawana — é um verdadeiro ponto de encontro para toda a comunidade local, independentemente de ascendência. Embora tenha nascido a partir da união de descendentes de Okinawa, atualmente a Associação é formada também por muitas pessoas que não têm ascendência japonesa, mas encontraram na filosofia de vida, nos costumes e na cultura okinawana um espaço de convivência, amizade e aprendizado. Todos são acolhidos e convidados a participar, seja nas aulas, eventos, festivais ou nos projetos sociais.
Conexão Paulistana: Como e quando a Associação da Vila Carrão foi fundada, qual era o cenário da comunidade okinawana no bairro na época?

Hiroshi Uehara: A Associação Cultural Okinawa da Vila Carrão foi fundada em 1962, durante uma época marcada pela forte presença de imigrantes japoneses e seus descendentes na região leste de São Paulo. Naquele período, muitas famílias okinawanas buscavam formas de se manter unidas, cultivar laços e preservar sua identidade cultural. O cenário do bairro era de muita simplicidade, mas também de solidariedade entre os imigrantes e a vizinhança. A AOVC nasceu justamente para oferecer esse espaço de tradição, mas desde o início foi aberta ao convívio com a comunidade local. Ao longo dos anos, a Associação foi abraçando também brasileiros sem ascendência okinawana, interessados na cultura, fortaleceu-se e consolidou sua missão social e cultural.
Conexão Paulistana: Pode nos contar um pouco sobre o nome “Vila Carrão” e por que essa localização foi escolhida para a associação?
Hiroshi Uehara: A escolha pela Vila Carrão ocorreu de forma natural: era o bairro onde muitos integrantes da comunidade okinawana já viviam ou tinham familiares. Além disso, a Vila Carrão sempre foi uma região acolhedora, com facilidade de acesso para diversos bairros vizinhos. O nome foi utilizado para valorizar e identificar o vínculo da Associação com o bairro, reforçando sua intenção de ser um ponto de referência para moradores da região e não só para descendentes de Okinawa.

Conexão Paulistana: O site indica que a Associação tem mais de 450 famílias associadas. Que papel a associação desempenha para essas famílias — quais são os principais motivos que levam a se associar?
Hiroshi Uehara: A AOVC funciona como uma grande família em si — um local para preservar e celebrar tradições, praticar atividades físicas, participar de oficinas, aprender música, dança e culinária. Porém, o principal papel da Associação é ser um espaço de acolhimento, socialização e apoio mútuo, onde todos, com ou sem ascendência okinawana, são tratados com respeito, amizade e carinho. Associar-se é, acima de tudo, querer fazer parte de uma coletividade baseada na filosofia okinawana de solidariedade, alegria e convivência.
Conexão Paulistana: Quais foram os momentos de maior transformação da AOVC ao longo das décadas – por exemplo, expansão de espaço, mudança de foco ou novos departamentos?
Hiroshi Uehara: A Associação passou por grandes transformações. Entre as principais estão: • Expansão do espaço físico para acomodar eventos e reuniões maiores; • Criação de novos departamentos, como esportes (ex: Gateball), condicionamento físico e atividades para jovens e terceira idade; • Abertura para toda a comunidade do bairro e de São Paulo, ampliando muito o número de associados sem ascendência okinawana; • Modernização da estrutura e digitalização de processos, especialmente após a pandemia, facilitando a comunicação e o alcance das atividades. Essas mudanças fortaleceram a missão de integrar diferentes tradições e pessoas com interesses em comum.

Conexão Paulistana: Como a associação traduziu e adaptou tradições como a dança Eisa, os tambores Taiko ou a culinária típica para o contexto do Brasil e do bairro?
Hiroshi Uehara: A AOVC adaptou as tradições okinawanas tornando-as acessíveis e atraentes ao público brasileiro: as danças como o Eisa são apresentadas em festivais abertos, com figurinos tradicionais e explicações didáticas. Os grupos de Taiko reúnem alunos de todas as idades, inclusive muitos sem ascendência japonesa. Já a culinária é celebrada durante os eventos, mesclando receitas tradicionais com ingredientes e sabores brasileiros – uma verdadeira ponte cultural que atrai moradores de toda a região.
Conexão Paulistana: Um dos departamentos mencionados é “Condicionamento Físico” — qual o objetivo desse departamento dentro da associação e como ele se conecta à cultura ou à comunidade okinawana?
Hiroshi Uehara: O departamento de condicionamento físico tem como objetivo principal promover saúde, bem-estar e a filosofia okinawana de longevidade, cuidado com o corpo e com a mente. Ali se praticam atividades físicas adaptadas para todas as idades, respeitando os limites e incentivando a solidariedade do grupo – características marcantes da cultura de Okinawa. Trata-se também de um espaço de integração social, oferecendo qualidade de vida e novos laços de amizade.

Conexão Paulistana: Outro departamento citado é “Gateball” – pode explicar o que é, como surgiu dentro da AOVC e por que é importante para os associados?
Hiroshi Uehara: O Gateball é um esporte coletivo semelhante ao croquet, muito popular entre idosos no Japão. Ele foi introduzido na AOVC como forma de oferecer lazer, exercício físico e incentivo à convivência. O Gateball é democrático: qualquer pessoa pode jogar — não é necessário ter experiência prévia ou ascendência japonesa, apenas curiosidade e vontade de participar. O esporte fortalece vínculos e mantém viva a tradição de união e alegria típicas da filosofia okinawana.
Conexão Paulistana: Em termos de projetos voltados para gerações mais jovens, o que a Associação oferece para envolver crianças e adolescentes na cultura okinawana?
Hiroshi Uehara: Há aulas, oficinas, eventos especiais? Sim! A associação oferece aulas de música (como sanshin), dança tradicional, oficinas culturais, atividades de Taiko, além de festivais e eventos que envolvem toda a família. O objetivo é cultivar o respeito às raízes, mas também inspirar orgulho e pertencimento às crianças e jovens, independentemente de terem ascendência okinawana. Muitos jovens da comunidade local participam, aprendendo valores, história e convivência multicultural.



