O maior cemitério da América Latina enfrenta críticas sobre conservação, segurança e respeito à memória dos mortos. Será que a Consolare está seguindo ao pé da letra o que diz no Evangelho?

por Fernando Aires

É fato que numa passagem bíblica, disse Jesus: “Deixai que os mortos enterrem seus mortos e siga-me”. Contudo, parece que a administradora Consolare do Cemitério Vila Formosa, está seguindo ao pé da letra esta passagem – o que revolta os parentes que claro, ainda possuem carinho e respeito pelos restos mortais de seus familiares.

Conhecido por ser o maior cemitério da América Latina, com mais de 1,5 milhão de pessoas sepultadas em seus 763 mil m², o espaço público tornou-se alvo de reclamações sobre a falta de manutenção, acúmulo de lixo, mato alto e até riscos de segurança para visitantes.

“Se você for enterrar alguém nesse cemitério, tenha em mente que você mesmo vai ter que fazer a manutenção do túmulo. Minha mãe foi enterrada há dois anos, e o túmulo dela está literalmente debaixo do mato. Quem a encontrou foi um funcionário que por acaso estava passando por lá e viu eu e meus irmãos perdidos procurando a lápide dela. Esse funcionário literalmente desenterrou a placa com o nome da minha mãe, caso contrário não teríamos achado nunca! A administração não atende ligações e eles também não dão o mínimo de atenção pelo WhatsApp. Os túmulos mais antigos estão no meio do mato alto, não sabemos se estamos andando em cima deles e ainda tem o risco de cair nos buracos que deixaram por lá também”, afirma publicamente Franceli Souza.

E não para por aí. Outra situação lamentável é a falta de tato, que algumas pessoas relatam na hora de abordar os custos do sepultamento:

“Estivemos nesse domingo lá, dia 28/09, para enterro de um ente querido. O cemitério é bem organizado, o maior que já fui em SP, o estacionamento é amplo. O único problema é que a gente mal enterra a pessoa e eles chamam para falar do valor de lápide no meio de todos os familiares. Eu acho que deveria ser informado dessas coisas junto ao agente funerário que intermediasse o pagamento, porque não achei de bom tom”, afirma Karol Moraes.

Famílias relatam descaso

A reportagem ouviu parentes que frequentam o cemitério para prestar homenagens a entes queridos. Muitos afirmam que a situação piorou nos últimos anos, com menos funcionários para limpeza e vigilância.

“É revoltante. Venho visitar minha mãe e encontro o túmulo cercado de mato, com lixo espalhado pelo chão e até restos de velas jogados de qualquer jeito. Parece que ninguém cuida daqui. Daí eu te pergunto: Foi pra isso que privatizaram? Eu pago uma espécie de  “IPTU” da campa da minha família para que, afinal?”, desabafa Maria Oliveira, de 54 anos, moradora da Penha.

Outro visitante, João Batista, 62, conta que já presenciou furtos de placas de bronze e vasos. “Além do abandono, ainda tem o medo. A gente nunca sabe se vai sair daqui com tranquilidade, porque a segurança é praticamente inexistente. Eles privatizaram, vieram com essa história de fazer tipo um parque, tudo muito bonito, mas prática é outra história. Eu já vi levarem placas do lugar e vou deter os caras como? Tá tudo abandonado, como é que fica isso?”, disse indignado o senhor.

As queixas se repetem em diferentes áreas do cemitério, tanto nas quadras mais antigas quanto nas mais recentes. Há relatos de dificuldade para localizar sepulturas devido à falta de sinalização e de registros digitalizados. Gavetas abertas, lixos espalhados, tais como garrafas de bebidas e até mesmo, barracas de acampamento, o que sugere que moradores de rua estão dormindo e vivendo dentro do cemitério. 

É o caso de Débora Tavares Turci: “Novamente fui visitar meu pai e a quadra 50 continua em total abandono. Nas ruas próximas, lixo espalhado. Sem contar que tomei um susto quando vi um morador de rua por ali. Há um problema muito sério com isso, será que a prefeitura não vê? Acho um total desrespeito com a família. Exijo providências.”

Consolare responde

Questionada sobre todas essas situações, a Consolare respondeu: “A Consolare informa que realiza regularmente serviços de manutenção no Cemitério Vila Formosa e mantém um cronograma contínuo de zeladoria, executado por empresa especializada. A roçada da quadra mencionada já foi concluída, assim como a limpeza e a manutenção da área dos ossuários.

A Concessionária possui um plano de obras em andamento que inclui a pavimentação das alamedas, deixando os caminhos mais nivelados e acessíveis aos visitantes. Essa melhoria será realizada dentro do prazo previsto no edital. A unidade conta com um veículo de apoio para facilitar a locomoção interna entre as quadras.

A Consolare já acionou diversas vezes os órgãos públicos competentes para que as pessoas em situação de rua que permanecem na Praça entre o Cemitério e o terminal de ônibus, e que eventualmente ingressam na unidade, sejam encaminhadas para atendimento e acolhimento adequados”.

História e importância
Inaugurado em 1949, o Cemitério de Vila Formosa foi projetado para desafogar a lotação dos cemitérios do centro da cidade. Atualmente, ocupa uma área maior do que o próprio bairro da Consolação e é considerado um marco histórico da expansão urbana paulistana.

Durante a pandemia de Covid-19, o espaço ganhou destaque nos noticiários nacionais e internacionais por concentrar grande parte dos sepultamentos da cidade. Imagens aéreas das covas abertas em série correram o mundo como símbolo do impacto da crise sanitária no Brasil.

Apesar da relevância histórica e cultural, familiares dizem que a memória dos mortos tem sido desrespeitada pela ausência de manutenção adequada.

Em Julho de 2024, a Consolare assumiu a administração do Cemitério, prometendo transformá-lo num cemitério modelo, com estrutura de parque, justamente para incentivar a população a visitar com maior frequência o local. 

Expectativa

Em nota, a Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social – SMADS informou que “os cemitérios são espaços públicos e não se pode impedir a entrada de pessoas vulneráveis. No entanto, a presença de moradores em situação de rua nos cemitérios é atípica, uma vez que não há registros de pessoas convivendo a longo prazo nestes locais. Nestas situações, recomenda-se acionar a Guarda Civil Metropolitana para dar suporte e promover o direcionamento dessas pessoas para a rede de acolhimento municipal”.

Ainda assim, familiares e especialistas destacam que ações pontuais não resolvem o problema. O que se cobra é um plano permanente de gestão e valorização do espaço, uma vez que é cobrado taxa fixa para tal, garantindo respeito à memória dos que ali estão sepultados. É o mínimo que a Consolare pode oferecer. 

Ou será que esperam que os mortos se levantem e cuidem de suas próprias campas?