Até que ponto o que é “teu”, é “teu” de verdade e ninguém pode te tirar? O que é “teu” de verdade? Já refletiu sobre isso? Um dia, a gente descobre que nem o tempo nos pertence mais e que tudo, incluindo o dinheiro na conta e as propriedades, não são nossos, porque são temporários.
por Fernando Aires

É muito comum as pessoas lutarem para terem dinheiro em abundância e com ele, adquirir posses diversas como carros – alguns de luxo, apartamentos amplos e coberturas, casas na praia, sítios, e claro, cada vez mais dinheiro acumulado, investido e multiplicado.
Isso é considerado sucesso na vida. Consciência tranquila, amizade verdadeira, arroz e feijão no prato, saúde? São ideias “retrógradas”, quase uma “obrigação” de Deus conosco.
Isso porque “ter”, é status e muita gente prefere “status” a viver. “É tudo meu, só meu!”. “Eu tenho direito”, pensam orgulhosos, enquanto calculam e recalculam seus lucros e propriedades acumuladas, mas, de fato, o que é realmente “teu”, “meu”, “deles”, em um mundo onde nenhuma previsão é certa ou absolutamente controlada?
O que é “meu”, “teu”, se a riqueza pode vir muitas vezes do pai, da mãe, do avô e de muitos que trabalham sem ter o “nome” registrado, mas o fizeram por amor, lealdade e confiança? Quantas “traições” não ocorrem em vista disso no dia a dia? Por causa da ganância, do egoísmo, do bendito “status”? Isso, quando não acaba em morte.
Nem a previsão do tempo, o homem consegue acertar! Do nada, um ciclone chega e devasta uma cidade inteira. Acabou-se o “status” de muitos, que o vento levou pra longe.
Muitos dirão: “eu trabalhei, conquistei e comprei, portanto é meu”. É fato, mas é “seu” temporariamente. São recursos obtidos legalmente, que se não forem usados com sabedoria, podem acabar nas mãos de quem pouco ou nenhum valor lhes dê. Ou ainda, o governo, em suas decisões, pode transformar qualquer império pessoal em ruínas, cujo valor dos bolsos já não conta mais nada a seus proprietários.
Em tempos de guerra, por exemplo, milhares de pessoas dotadas de riquezas, simplesmente perderam tudo, passando a depender da misericórdia e caridade do próximo. Não são poucos os filmes de guerra que mostram isso, por exemplo, o lendário “A Lista de Schindler” que com a mesma clareza com que as cenas foram feitas em preto e branco, mostra a grandeza de um povo rico, que foi da fortuna à miséria através do nazismo, enfrentando por fim, o holocausto.
O próprio Oscar Schindler, que também aproveitou a vida e tornou-se milionário com a 2ª Guerra, abriu mão de toda sua riqueza na época, salvando mais de 1.100 judeus (comprados dos exércitos alemães com seu dinheiro). Morreu pobre e quase sem nenhum tostão – mas com uma felicidade que o dinheiro não compra.
A história nos revela centenas de casos parecidos. Um muito interessante no Brasil, surgiu há uma década. Eike Batista, que chegou a ser listado como um dos 10 bilionários do mundo na Revista Forbes, assistiu ao seu império derreter, chegando talvez a uma pequena fortuna – que não está livre de desaparecer ainda mais nas mãos de “laranjas” seus.
Além do que, envolvido em esquemas de fraude, acabou preso e hoje é sinônimo de prejuízo e má gestão. Ninguém quer, de livre e espontânea vontade, “ser amigo” do Eike Batista.
Nem no “Facebook” ou no “Instagram”.
“Isso é meu”, “aquilo é meu”, “minha casa”, “meu carro”, “meu”, “meu”, “meu”. Incrível como o ser humano só conjuga o primeiro pronome do plural quando surgem os “abacaxis”. Para descascá-los, conta-se com todos, afinal, é impossível resolver os problemas sozinho. Daí, vem o misericordioso “nós”, geralmente conjugado com lágrimas nos olhos.
Mas na hora de dividir o “doce”, quase ninguém quer. Daí, só “‘eu’ mereço e tenho direito, por tudo que passei”.
O homem precisa aprender muito mais do que multiplicar, a dividir. Dividir méritos, ideias, créditos, ninguém chega a lugar algum sozinho. Dividir o próprio e valioso tempo, que não lhe pertence, com quem merece e precisa, com as coisas que realmente valem a pena na vida e duram uma eternidade, gravadas em nossas almas.
Na vida de um casal, por exemplo, não deveriam existir expressões como “eu quero”, “eu fiz”, “eu faço”, “eu vou fazer”, e sim, “vamos fazer?”, “você gosta?”, “o que você acha?”, “o que você tem vontade?”. Não deveriam existir “ordens”, mas sim “realizações”, onde um completa o outro até nas tarefas diárias. Sem cobrança, sem pressão ou “prova de autoridade”.
Por isso, tantas separações, porque a vida se torna pesada, cheia de cobranças e angústias desnecessárias. De palavras, muitas vezes não ditas e “vomitadas” de uma só vez. A vida de um casal não deveria se constituir por bens ou posses, ou vantagens e expectativas, mas por carinho, cumplicidade, lealdade.
Não deveriam existir expressões do tipo “minha TV”, “minha cama”, “meu sofá”, mas sim, “nosso isso”, “nossa aquilo”, mesmo que as contas ainda sejam pagas por apenas uma parte. Afinal, se contribui numa casa não apenas com dinheiro, mas também com trabalho, com carinho e amor.
Não é o que se aprende – ou se deveria aprender na casa dos pais, que mesmo pagando todas as contas dos filhos, não lhes jogam na cara que a casa seja mais ou apenas deles? E na verdade é.
O mesmo é na sociedade. E também numa sociedade empresarial familiar ou empresa individual, cujo(s) dono(s) muitas vezes não se faz(em) no papel, mas no trabalho e cuidado diários, com a administração, com os funcionários, com as ideias para onde e como investir melhor. Isso quando poderiam dar as costas e fazerem o que bem entendessem de suas vidas, deixando a quem fica, nas mãos de Deus.
Muitas vezes, a palavra é a única certeza de confiança, gratidão, divisão e porque não dizer, de amor verdadeiro. O amor também se encontra nas divisões e aprender a dividir, é também, multiplicar.
Muitos falam sobre a parábola de Jesus a respeito da multiplicação dos pães e dos peixes. Sobre como cerca de 5.000 homens, sem contar mulheres e crianças, com apenas cinco pães e dois peixes, se multiplicaram milagrosamente, saciando a todos. No fim, os apóstolos de Jesus recolheram doze cestos cheios de pedaços, mostrando que nada foi perdido e que o milagre foi completo.
Mas que milagre foi esse, o da multiplicação? Não, o da divisão! Ao repartir o pão e os peixes, Jesus nos mostra a verdadeira bênção que vem do Alto, do qual nada nos falta. Jesus nos mostra que dividindo, as porções se multiplicam e, muitos, com certeza trouxeram mais do que a Bíblia nos fala. Jesus tinha poder para aumentar a quantidade de comida o quanto quisesse, mas não fosse a divisão que ensinou para todos, os cestos permaneceriam vazios.
Não fora ele mesmo quem disse: “Quem tiver duas túnicas, dê uma a quem não tem”?
É a lição que a humanidade ainda não aprendeu: dividir, porque nada nesse mundo é teu de verdade, a não ser a tua sabedoria e evolução. O teu conhecimento e a forma como isso te molda um ser humano melhor.
Essa “transformação” é só tua, de fato. O resto, tendo ou não o seu nome gravado, é apenas temporário. “Teus”, são os pensamentos, o jeito de viver, de conquistar amizades, um amor. Teu é o olhar de quem te confia e gosta de verdade de você.
No mais, nem mesmo a nossa própria vida nos pertence, visto que daqui a segundos, pode nos ser tirada sem qualquer aviso. E nenhuma de nossas posses serão gozadas por nós.
Portanto, que possamos conjugar mais o “nós”, em vez do “eu”. “Que usemos mais o “nosso”, em vez do “meu” e que pensemos um pouco mais no outro, quando pudermos nos regozijar sozinhos, de uma vantagem qualquer, em vez de achar que apenas nós temos um direito absoluto.
Ninguém sabe como será o dia de amanhã e quando vamos precisar do outro, para termos direito a qualquer coisa. Afinal, nem o tempo é nosso, nos tirando cada sopro de vida que ainda nos resta.
Fernando Aires é editor do Conexão Paulistana, escritor e jornalista. Converse com ele através do e-mail: fhairesjoaquim@gmail.com


