por Sérgio Miranda
Oi, meu amor… você está bem?

Queria tanto falar com você um pouco. E como não sei onde te encontrar, deixo aqui este “bilhete”.
Não sei se ele chega até você, mas gosto de acreditar que sim — porque o amor sempre encontra um caminho.
Acabei de chegar à nossa casa, em São Paulo. Nestes últimos dias, aproveitei a folga do trabalho e andei pelo mundo, passando por lugares onde, de alguma forma, eu sabia que iria te encontrar.
Mas agora voltei para o nosso canto.
Quero ver a passagem do Ano Novo daqui, no silêncio do nosso quarto, onde tantas vezes fomos apenas nós dois.
Nosso filho primogênito se despediu há pouco. Foi passar a virada na casa dos seus pais, Evelaine. Amanhã passarei lá para vê-los.
O nosso filho do meio, Luiz Fernando, está no sul do Chile, onde também passará essa virada, cercado pela família e pelos sogros.
Nossa caçula, Isabella Cristina, está na casa dos sogros dela. Falei com ela hoje por telefone e combinei que, se eu não for lá, amanhã, durante o dia nos vemos.
Comprei um presente para ela em Serra Negra… aquela cidade onde você tanto gostava de fazer compras. Um conjunto lindo — blusa e bermuda — que não foi surpresa, porque fiz uma chamada de vídeo para ela escolher. Você sabe, meu amor, como sou desajeitado com essas coisas… precisei da ajuda dela, como tantas vezes precisei da sua.
Agora estou aqui, sentado em nosso sofá, tentando enfrentar essa noite sem você.
É a segunda vez, em 41 anos juntos, que encaro essa solidão. E ela pesa como nunca.
Hoje, no começo da tarde, ao sair de Águas de Lindóia, passei novamente por todos aqueles lugares que nos marcaram tão profundamente. Cada curva, cada esquina, cada lembrança. E sabe o que eu dizia baixinho ao passar por eles?
“Vem comigo, amor… não fica aqui não. Vem comigo.”
Talvez seja bobagem. Talvez beire a loucura. Mas em todos esses lugares eu consigo te ver, te sentir. E mesmo assim, não quero que você permaneça ali. O seu lugar é ao meu lado, meu amor. Sempre foi.
Agora estou em nossa casa, cercado pelas lembranças: suas fotos, seus cheiros, seus caprichos — que me esforço tanto para manter vivos — suas roupas, e essa saudade que me atravessa sem pedir licença.
É aqui que percebo o quanto estou sozinho. Porque, apesar de tudo aqui gritar o seu nome, você não está. E como eu desejo esse impossível, Evelaine…
As recordações já não me ajudam. Na verdade, agora nada ajuda. São 19h15 deste início de noite, e ainda há uma madrugada inteira pela frente. Como atravessá-la sóbrio? Impossível.
Por isso, desde já, te peço perdão.
Você sabe… eu nunca fui tão forte quanto você. E sem você aqui, parece que não sobrou nada de mim.
Não faço mais planos para o futuro. Não sei como será o dia de amanhã, nem o ano que se aproxima. Mas enquanto eu estiver aqui, será por você que estarei chorando — como agora.
Acredito que onde você está o tempo já não existe, então não vou te desejar um Ano Novo. Mas quero que saiba: continuo a te amar como se você ainda estivesse aqui. Continuo a te desejar, como sempre desejei.
Te amo, Evelaine.
Não importa o tempo, o lugar, a dimensão, a vida ou a morte.
Enquanto eu respirar, estarei te amando.
Depois disso… bem, depois veremos o que nos espera.
Te amo, minha doce Evelaine.
Sérgio Miranda é escritor e assessor na CET- Companhia de Engenharia de Trafego


