por Pedro Hensel

O Chumash Plaut (ou A Torá: Um comentário moderno, editado por W. Gunther Plaut) oferece uma perspectiva progressista e moderna sobre a Parashá Tetsavê (Êxodo 27:20–30:10). Esta parashá foca nos detalhes do Tabernáculo (Mishkán), o templo portátil para adoração a Dus,concentrando-se especificamente no sacerdócio e nas vestimentas sagradas.
Aqui estão os principais destaques e temas abordados pelo Chumash Plaut e comentários afins nesta parashá:
1. A Luz Constante (Ner Tamid)
A parashá começa com a ordem de trazer azeite de oliva puro para a menorá.
Significado: Plaut e os comentários relacionados destacam o Ner Tamid (luz perpétua) não apenas como um ritual, mas como um símbolo de que a presença Divina deve ser cultivada continuamente na vida diária. O ato de “acender” a luz simboliza a missão do Povo Judeu de ser uma luz para as nações.
2. O Sacerdócio e as Vestimentas (Bigdei Kehuná)
Tetsavê detalha os trajes especiais de Aharon e seus filhos.
Visão do Plaut: As vestes não são vistas apenas como ornamentos, mas como ferramentas funcionais e simbólicas para o serviço sagrado. O Cohen Gadol (Sumo Sacerdote) vestia oito peças, incluindo o peitoral (choshen) com as 12 pedras, representando a diversidade e a unidade das tribos de Israel.
Glória e Esplendor (Lechavod Uletif’áret): Os comentários enfatizam que as roupas visavam conferir dignidade ao serviço Divino, elevando o espírito humano para o trabalho no Tabernáculo.
3. A Ausência de Moshê
Um fato marcante em Tetsavê é que o nome de Moshê não é mencionado nenhuma vez.
Análise: Comentários tradicionais e reflexões modernas, frequentemente encontradas em edições como a do Plaut, sugerem que isso ocorre porque, após o pecado do bezerro de ouro, Moshê disse: “Apague-me do Teu livro”. Outra interpretação é que, ao focar em Aharon e no sacerdócio, a parashá transfere o foco da liderança individual de Moshê para a estrutura institucional e o serviço comunitário.
4. A Função do Incenso e a Consagração
A parashá finaliza descrevendo o Altar de Incenso e a consagração dos sacerdotes.
Consagração: O processo de 7 dias de iniciação dos Cohanim (Aharon e seus filhos) destaca que a liderança espiritual exige treinamento, separação e dedicação.
5. A Perspectiva do Chumash Plaut
Como uma obra de orientação reformista/liberal, o Plaut:
Remove interpretações muito antigas em favor de um texto mais direto e acessível.
A parashá destaca a importância dos detalhes e a necessidade de vestir-se com propósito e dignidade ao servir ao Criador. Ela também enfatiza a unidade na diversidade, representada pelas doze pedras do peitoral.
A rabina Naama Dafni ensina que essas parashiot, nas quais há uma criação conjunta entre o que Deus ordena e o que o homem cria, mostram claramente a diferença entre criar sozinho e criar em grupo, em comunidade, em parceria. O mundo, na parashat Bereshit/Gênesis, foi criado através da palavra de Deus: Deus fala e se faz a luz, separam-se as águas, aparece a terra, os luminares… Deus cria o mundo sozinho em seis dias com uma certa ordem, sem descrever os detalhes de como isso acontece, sem nomear os materiais. Deus cria, nomeia e existe.
Depois de ter criado o mundo, Deus tem parceiros, os seres humanos. Quando chega o momento de criar um santuário e preparar aqueles que servirão a Deus em nome do povo, a criação se converte em uma tarefa conjunta, e isso é sempre mais complexo. Deus descreve a Moshé como deve ser, e Moshé deve transmitir com exatidão o desejo Divino que será criado por seres humanos. Para conseguir, precisamos de muita conversa, preparo, detalhe, precisamos combinar e compreender.
A tenda da reunião era um lugar de encontro entre Deus e o povo de Israel durante décadas da nossa história e, como em todo encontro, a presença de todas as partes, suas contribuições, participação e compromisso são importantes, necessárias, imprescindíveis.
Pensando na parashá da semana passada, parashá Terumá ou Trumá, qual é a nossa contribuição à nossa tenda da reunião? Como somos parte da construção de nossa comunidade? Já em relação à parashá desta semana, Tetsavê, como nos preparamos cada dia para nos apresentarmos diante de Deus? O que mostramos e o que escondemos com as roupas que vestimos? Qual é a nossa mensagem em nossa forma de nos apresentarmos diante de Deus e diante de nossos semelhantes? Quais são os acordos de valores e práticas dentro de nossa comunidade?
A parashá desta semana nos apresenta, em sua parte final, o sacrifício diário que deveria ser feito duas vezes ao dia, de manhã e à tarde, que levava o nome de Tamid, que significa algo que acontece regularmente. A palavra “Tamid” também quer dizer “sempre”.
O sacrifício do Tamid é, de certa forma, aquilo que transformamos nas nossas rezas diárias. Em nossa tradição, rezamos três vezes ao dia: Shacharít e Minchá são rezas obrigatórias, e Arvít é opcional.
Três vezes ao dia, paramos para sermos chamados a ver o detalhe, para prestar atenção aos pequenos e grandes milagres. Três vezes ao dia, temos a oportunidade de nos darmos espaço e tempo para valorizar o cotidiano, o regular, aquilo que às vezes parece só um detalhe mas que nos sustenta e dá forma à nossa vida.


