por Pedro Hensel

Segundo o Rabino Daniel Fisch, no Livro Dimensão Mística da Torá, no início da Parashá Ki Tissá, a nona do livro de Shemot-Êxodo, Dus ordena que cada judeu contribua com um valor único, de meio shekel, quando houver recenseamento do povo. Em seguida, são expostas orientações referentes ao serviço Divino no Tabernáculo, o Mishkán, o Templo/Santuário portátil.
A Parashá relata ainda o triste episódio do bezerro de ouro, feito pelos judeus enquanto Moshé demorava a descer do Monte Sinai.
A união de duas metades:
“ISTO DARÁ CADA UM {…} METADE DE UM SICLO {…} O RICO NÃO AUMENTARÁ E O POBRE NÃO DIMINUIRÁ DA METADE DE UM SICLO.”
Esta parashá apresenta a mitsvá/mandamento/boa obra/boa ação, de mitsvá de machatzit hashekel, a contribuição de meio shekel, obrigatória para cada judeu.
Em várias mitsvot, destaca-se a importância do objeto utilizado ser da melhor qualidade, inteiro e primoroso nos mínimos detalhes.
Para mostrarmos esmero no cumprimento de preceitos, nossas oferendas devem ser perfeitas, sem defeitos.
Porém, nesta parashá, a ordem Divina é bastante diversa:a oferta deve ser de meio shekel. Para reforçar a ideia, a Torá repete duas vezes a expressão “meio siclo”.
Surge então a pergunta:Por que, nesse caso, a mitsvá consiste justamente em dar a metade, e não uma unidade completa?
Os sábios explicam que a contribuição de meio shekel tem a finalidade, entre outras, de expiar o pecado de bezerro de ouro. Portanto, a ênfase na metade indica que a retificação desse erro está relacionada com o conceito de “meio”.
A idolatria consiste essencialmente em afastar-se de Dus. Ela se origina do fato de a pessoa sentir que tem existência própria (metziut) e é autossuficiente.
Para corrigir essa situação, o indivíduo deve conscientizar-se de que a unidade de Dus abrange toda a criação.
Quando a pessoa compreende que não possui existência independente e Dus é a fonte de sua vida, a possibilidade de idolatria é eliminada.
É isto que a Torá nos ensina com a mitsvá do meio skekel:o judeu deve entregar-se a Dus, sabendo que é apenas uma metade e só se completará quando se unir à outra- Dus. O individuo não é uma entidade isolada e autônoma; precisa conectar-se a Dus para vir a ser inteiro e completo.
Assim, impondo a contribuição de meio shekel, a Torá nos mostra que, embora sejamos apenas “metade”, temos uma ligação essencial com Dus. Um ser-humano e Dus não são dois seres diferentes e separados que se juntam; são duas metades que, reunidas, formam algo completo.

Livro Chumash Plaut 1ª Edição em Língua Portuguesa.
Livro Devarêcha Yair
Livro Dimensão Mística da Torá, Rabino Daniel Fisch.
Pedro Augusto Franchini Hensel é bacharel em Direito e estudioso pesquisador.


