Silvia Inêz Machado enxerga avanços expressivos na Zona Leste e deseja que comerciantes e empresários da região estejam mais preparados, encontrando na Distrital um braço forte. Saiba mais:
por Fernando Aires

Ela é poetisa e historiadora por vocação e membro do Coletivo Literário de Tatuí, interior de São Paulo. Silvia Inêz Machado atua na Associação Comercial há mais de 30 anos e aprendeu a entender o pequeno, médio e grande empresário.
Neste mês de junho, a então conselheira foi convidada pelos diretores da Associação Comercial de São Paulo a assumir a Superintendência da Distrital Tatuapé, importantíssima unidade da Zona Leste, que abrange às áreas também da Vila Formosa, Carrão, Anália Franco, Aricanduva e São Mateus.
Fundada em 1991, a Distrital Tatuapé da ACSP acompanha de perto o progresso de boa parte da Zona Leste. Nos últimos anos, a região lidera o número de lançamentos imobiliários e vem passando por grandes transformações com o surgimento de novas opções comerciais. E os desafios sociais e econômicos não param.
Acompanhe a entrevista!
Como foi o contato inicial com a Distrital Tatuapé da Associação Comercial?
Silvia Machado: Eu comecei com o Dr. Brasil (Dirceu de Paula Brasil), na época superintendente da Distrital Tatuapé que ficava na rua Padre Adelino. E eu participava de todas as reuniões. Aprendi com o dr. Brasil, que era um apaixonado pela Associação Comercial e por esta Distrital. E ele convidava os empresários da região para estar em nossas reuniões toda semana, praticamente a cada 15 dias. Ele ia a pé, muitas vezes, conhecer esses comerciantes e empresários, ouvir a muitos deles, suas necessidades, suas queixas, ele entendia que a Associação tinha um papel fundamental para o desenvolvimento da região e essas pessoas eram a força da região. As portas da sala dele estavam sempre abertas para todos. Foi um advogado super fino, uma pessoa super delicada, inteligentíssima, com quem tive o privilégio de aprender muito. Foi através do Dr. Brasil que eu comecei a fazer parte dessa família aqui na Distrital.

A região do Tatuapé e entorno vive um processo acelerado de transformação urbana e econômica. Como a Distrital pretende acompanhar esse crescimento e quais são os principais desafios já observados atualmente?
Silvia Machado: Meu objetivo é trabalhar com toda a área de abrangência da Distrital Tatuapé. Nós temos que atender aos empresários, precisamos estar perto deles, ao lado deles. Para tanto, eu estou chamando nessa gestão, a liderança de cada setor para fazer parceria conosco, no sentido de que possamos nos aproximar ainda mais dos empresários e comerciantes de cada região. Nós queremos detectar as lideranças de cada bairro e através dessas lideranças começar a fazer reuniões nos locais para levantar junto aos empresários, quais são as dificuldades, quais são as dúvidas, que tipo de orientação eles precisam. Estou falando de empresários e comerciantes, enfim, porque a Associação Comercial tem uma serie de especialistas que podem orientá-los, porque a Associação Comercial é uma potência e tem tudo para fortalecer ainda mais a Zona Leste. Eu fico apenas um ano nesse cargo, mas neste período eu pretendo trabalhar muito.
O comércio tradicional enfrenta mudanças provocadas pela digitalização e pelo e-commerce. Como a Associação Comercial tem apoiado os empreendedores nesse processo de adaptação?
Silvia Machado: Nós temos um time de profissionais competentes que podem orientar a muitos comerciantes a entrarem na era digital. Embora haja ainda certa dificuldade com tudo isso, sobretudo com as novas taxações que passarão a valer em 2028, os comerciantes e empresários terão agora, 2026/2027 para se adaptarem. Então, a Distrital Tatuapé quer ajudá-los a entender todas as mudanças e prepará-los para o futuro e o melhor, abrindo espaço também para que as gerações futuras possam dar continuidade às suas histórias. E tudo isso, eu quero levar para Vila Formosa, São Mateus, Carrão, Aricanduva e outros bairros da Distrital.
A Distrital Tatuapé tem um histórico de participação em debates sobre desenvolvimento regional. Quais pautas prioritárias a senhora considera fundamentais para o futuro da Zona Leste?
Silvia Machado: A Zona Leste é gigantesca, e eu a vejo como uma potência de mercado em constante evolução. Os bairros estão crescendo, mas é necessário que haja estrutura para acompanhar todo esse crescimento. Existe agora, com as obras do metrô, um “avanço” na questão da mobilidade, mas ainda estamos no começo dessas obras, em muitos lugares, as pessoas ainda não têm acesso a tudo que precisam e muitos comerciantes fecham suas portas, em razão da falta dessa mobilidade. Sem contar outras questões importantes, que o Poder Público já atua para dar auxílio, mas que ainda prejudicam toda a atividade comercial. Então, essa estrutura precisa ser planejada, criada e bem executada para que a região continue crescendo com a qualidade que precisa e merece.
A participação feminina em cargos de liderança empresarial tem aumentado nos últimos anos. Como a senhora avalia essa evolução e quais barreiras ainda precisam ser superadas?

Silvia Machado: Ah, houve avanços sim, mas ainda falta muita coisa. A gente vê por exemplo, nas grandes empresas, as diferenças em termos de cobrança, a pressão exercida e até mesmo a questão salarial, que ainda diverge muito. A realidade é que as mulheres sempre precisam provar a todo momento que estão preparadas para tal função e são cobradas sempre a mais que os homens. Mas eu entendo que é uma questão de tempo para que nós possamos também, aos poucos, mudar isso na sociedade.
Além da Associação Comercial, quais outras atividades a senhora gosta de se dedicar?
Silvia Machado: Eu amo o trabalho de historiador, sabe. Trabalhei com Pedro Abarca, conhecido historiador do Tatuapé no projeto do roteiro histórico do Tatuapé e elaborei o roteiro histórico da Vila Formosa. Amo estudar e conhecer a história dos bairros. Outra coisa que amo é escrever, principalmente poesia. No roteiro histórico de Vila Formosa, tem uma poesia minha, em homenagem à Praça Anna dos Santos Figueiredo. Tem uma história triste, porque a Anna dos Santos foi filha de um dos primeiros construtores do Tatuapé, o senhor Francisco Figueiredo. Ele tinha um escritório ali na Salim Farah Maluf. A filha, foi estudar enfermagem na USP e foi assassinada na época, em um ato de feminicídio. A Anna era alegre, queria fazer muitos cursos e sonhava em oferecer cursos profissionalizantes para adolescentes. Então, eu fiz a poesia em homenagem a esse local e também, à Anna:
Praça Anna dos Santos Figueiredo
Quando passo por essa praça
Sonho com um marco da paz implantado em seu coração,
Com a população usufruindo cada cantinho, cada pedacinho,
Mas sinto dor no coração, quando vejo,
Uma praça mal cuidada, inacabada,
Poucas árvores, flores ou gramas,
Parceria mal realizada pela administração municipal
Onde a mata atlântica foi defasada
E onde não foram replantadas as árvores arrancadas,
Que deveriam ocupar o lugar da mata atlântica deflorada.
Precisamos cuidar deste cartão de visita da vila,
Somos a vila mais que formosa desta cidade,
E temos que lutar sempre pela vida e conservação,
Chego a sentir um nó no coração,
Quando passo por esta praça mal acabada,
com pista de skate inadequada,
Com uma obra de arte não entendida,
Então, sinto-me na obrigação,
De convocar a população,
Para num ato de cidadania,
Por as mãos na massa, na enxada ou no enxadão
E, partir para a ação,
Deixando a praça, até então,
Ameaçada, abandonada pela administração,
Pronta para ser utilizada pela população!
Silvia Inêz Machado / 2018


