por Sergio Miranda

Há recordações que não passam apenas pela memória, elas atravessam o coração e machucam a alma.

Na manhã deste sábado, ao voltar de um compromisso, quando me dei conta, estava passando em frente ao Hospital IBCC — Instituto Brasileiro de Controle do Câncer. Foi naquele lugar, minha Doce Evelaine, que, durante dois anos e dez meses, você buscou com tanta coragem a cura para aquele câncer que havia voltado para atormentar seu corpo.

Foram apenas alguns segundos diante daquele hospital, mas o tempo pareceu parar. Em minha mente, as lembranças surgiram uma após outra, como cenas de um filme triste que eu jamais gostaria de rever. E não houve como impedir que as lágrimas corressem.

Lembrei-me da primeira e da última vez em que estivemos ali.

Na primeira, entramos juntos. Caminhávamos lado a lado, assustados, inseguros e um pouco perdidos. Havíamos acabado de receber a notícia de que, depois de dez anos, o câncer tinha voltado. Era como se uma tempestade que julgávamos distante tivesse encontrado novamente o caminho de nossa casa.

Quando a doença apareceu pela primeira vez, em seu seio, ainda tínhamos um convênio médico particular. Por meio dele, foram realizados todos os procedimentos: a cirurgia na mama, a retirada da tireoide como prevenção, as sessões de quimioterapia e de radioterapia. Depois, porém, acabamos perdendo o convênio empresarial e, quando o câncer retornou, precisamos buscar atendimento pelo SUS – Sistema Único de Saúde.

Foi assim que chegamos ao IBCC, no bairro da Mooca.

Naquele primeiro dia, encontramos uma recepção tomada por pessoas que, assim como nós, carregavam seus medos, suas dores e suas esperanças. Havia também um enorme painel anunciando vagas para novos exames somente para meses mais tarde. Era o caminho possível naquele momento.

E você, Evelaine, com a paciência, a delicadeza e a coragem que sempre fizeram parte de você, seguiu todas as orientações.

Com o passar do tempo, percebemos que, apesar de o hospital estar sempre cheio, os agendamentos e atendimentos aconteciam com rapidez.

Também encontramos pessoas muito atenciosas. Da recepção aos médicos, havia sempre alguém disposto a cuidar de você com respeito, carinho e humanidade.

Os dias se transformaram em semanas, as semanas em meses, até que chegou aquele dia.

Um dia que, para mim, parecia ser apenas mais um entre tantos outros de luta. Eu ainda não sabia que seria o dia em que veria você partir.

Assisti ao seu sofrimento, especialmente naquelas últimas horas, sem ter o poder de impedir que a vida, lentamente, se afastasse de você. Tudo o que pude fazer foi permanecer ao seu lado, segurando sua mão durante horas. E continuei segurando-a mesmo depois que você já não estava mais naquele corpo.

Talvez porque soltá-la significasse admitir que você havia partido. E eu não estava preparado para deixá-la ir.

Ao passar diante do hospital, lembrei-me de que também saí dali com você pela última vez. Mas, naquela madrugada, você já não caminhava ao meu lado nem segurava a minha mão.

Estávamos juntos no mesmo veículo, mas era um carro estranho, no qual nunca havíamos entrado antes. Eu seguia sentado na frente, ao lado do motorista, enquanto você estava atrás, deitada dentro de um caixão.

Meu Deus, como foi difícil deixar aquele lugar daquela maneira…

Havíamos saído dali tantas outras vezes. Mesmo debilitada pelas medicações e cercada de incertezas, ainda saíamos juntos. Sempre que podíamos, tentávamos transformar aqueles dias difíceis em momentos de felicidade.

Às vezes, parávamos para comer alguma coisa. Em outras ocasiões, passeávamos pelo shopping. Houve ainda aqueles dias em que seguíamos diretamente para o litoral, onde permanecíamos por algum tempo.

Mas, naquela última madrugada, não havia conversa, passeio ou destino escolhido por nós.

Havia apenas silêncio.

Lembro-me de tentar olhar para a parte de trás daquele furgão, querendo saber se estava tudo bem com você. Como se isso ainda fosse possível.

Era o meu coração de marido tentando continuar cuidando da mulher que amava. Talvez uma parte de mim ainda esperasse ouvir sua voz ou encontrar seu olhar. Talvez eu ainda desejasse que você me dissesse, como tantas vezes: “Está tudo bem, meu amor.”

Mas você permanecia em silêncio.

E aquela foi a nossa última vez naquele lugar.

Depois de sua partida, voltei algumas vezes ao IBCC. Fui visitar os amigos que fizemos durante sua caminhada e também entregar uma emenda parlamentar que consegui, por meio de um deputado estadual, como forma de agradecer por tudo o que fizeram por você.

Sei que duzentos mil reais, diante de tantas necessidades, podem parecer pouco. Mas aquele gesto carregava algo que não cabia em números: a minha gratidão por cada atendimento, cada cuidado, cada palavra de esperança e cada tentativa de manter você ao meu lado por mais algum tempo.

Passar diante daquele hospital sempre fará as lembranças retornarem, minha Doce Evelaine.

Ali começou uma das fases mais difíceis de nossa história e foi também dali que saí com você pela última vez, minha Doce Evelaine.

Sérgio Miranda é escritor e assessor na CET- Companhia de Engenharia de Trafego