POR Sérgio Miranda

Nesse meu esforço de mantê-la viva aqui ao meu lado, Evelaine, pelo menos enquanto ainda houver fôlego em mim, permito que as lembranças da nossa história permaneçam acesas dentro do meu coração. E isso é tão fácil… porque elas surgem o tempo todo.
Elas aparecem nos caminhos que percorro entre o trabalho e a nossa casa, nas ruas por onde passo, nos lugares que testemunharam nosso amor. Às vezes, preciso atravessar os mesmos locais várias vezes ao dia, e em cada passagem é como se você reaparecesse diante de mim. E como é bom reviver isso, meu amor…
Todas as vezes em que me lembro de você, é como se eu a ressuscitasse por alguns instantes dentro de mim. Como se o passado respirasse outra vez.
Nas ruas próximas da nossa casa, perto da igreja onde congregávamos, ou até mesmo no terreno onde um dia existiu a casa dos seus pais, e que você me dizia sempre sonhar com ela, eu passo pelo menos duas vezes ao dia: quando vou trabalhar e quando volto. E parece que todas as lembranças ficam escondidas ali, silenciosas, apenas esperando minha presença para despertarem.
E eu mergulho em cada uma delas, Evelaine…
Mas não é somente perto de casa que você vive em mim.
No centro de São Paulo, por exemplo, quando passo diariamente pela Avenida Tiradentes, ao lado da Estação São Bento do metrô, meu olhar corre imediatamente para aquele prédio na Rua São Bento, naquela primeira sobreloja, onde trabalhamos juntos por um ano e meio, mais ou menos.
Ainda consigo enxergar a janela do meu antigo escritório.
Naquela época, nos anos 90, eu era gerente da Livraria Evangélica Luz e Vida — aquela que vendia os materiais do Smilingüido, a formiguinha tão querida e famosa — e você trabalhava comigo como atendente. A livraria era enorme, quase 400 metros quadrados, a maior da cidade naquela época.
Tenho muitas lembranças daquele tempo, mas existe uma que guardo como um tesouro secreto da alma.
Lembro-me de um dia em que eu estava sozinho em minha sala, porta fechada, concentrado em alguma tarefa qualquer. Talvez organizando pedidos, talvez resolvendo problemas do trabalho… então você entrou.
Linda… como sempre foi.
Vestia o uniforme da livraria que marcava bem o seu belo corpo, e havia algo diferente no seu olhar naquele dia. Um brilho travesso, apaixonado, quase impossível de esquecer. Você fechou a porta devagar, aproximou-se de mim sem dizer uma única palavra, tomou delicadamente o telefone da minha mão e, segurando meu braço, me fez levantar.
Obedeci sem entender.
Você me conduziu até a cadeira que ficava em frente à mesa, e então, para minha surpresa, sentou-se no meu colo, me abraçou e me beijou como se o mundo inteiro tivesse desaparecido ao nosso redor.
Foi um daqueles momentos pequenos diante do tempo… mas eternos dentro da alma.
Não preciso contar detalhes. Você certamente brigaria comigo se eu fizesse isso. Mas posso dizer que naquele instante havia amor, cumplicidade, desejo e uma entrega tão bonita, tão verdadeira, que nem mil anos seriam suficientes para apagar essa memória de mim.
E hoje, todas as vezes que passo diante daquela janela, eu volto para aquele dia.
E choro.
Porque nada parecido acontecerá novamente.
Porque você não estará mais aqui, meu amor.
E eu não quero jamais que alguém tenha uma imagem errada de você. Você nunca foi uma mulher exibida ou vulgar. Muito pelo contrário. Era discreta, reservada, elegante, serena. Tinha uma delicadeza rara, uma presença suave que iluminava qualquer ambiente sem precisar chamar atenção.
Sua fala era mansa. Seus gestos, comedidos. Havia ternura até no seu silêncio. E, ao mesmo tempo, um senso de humor inteligente e encantador que só quem convivia com você podia conhecer.
Até mesmo nos nossos momentos mais íntimos existia em você certa timidez bonita, quase inocente.
Talvez por isso aquela lembrança tenha se tornado tão inesquecível para mim.
Se você estivesse aqui hoje, Evelaine, uma das perguntas que eu te faria seria justamente esta:
Por que naquele dia você decidiu me amar daquela maneira tão inesperada e tão inesquecível?
Aliás… existem tantas perguntas que ficaram sem resposta.
E eu não me perdoo por não tê-las feito enquanto ainda tinha você ao meu lado. Se bem que uma questão, do tempo do nosso namoro, que voltou e me incomodou muito, você me respondeu em um sonho.
Parece que a correria da vida foi deixando certas conversas para depois… e agora, justamente agora que tenho tempo demais para recordar, percebo quantas histórias nossas ficaram guardadas em silêncio.
Quantas memórias eu queria revisitar com você.
Quanta coisa eu queria ouvir da sua boca mais uma vez.
Saudades de você, minha doce Evelaine.
Saudades de tudo o que vivemos.
Saudades de tudo o que você foi.
E, de alguma forma misteriosa e eterna… ainda continua sendo para mim.
Sérgio Miranda é escritor e assessor na CET- Companhia de Engenharia de Trafego



