por Sergio Miranda

Ah, minha doce Evelaine… como você está?
Gosto de acreditar que você está bem. Muito feliz. Em um lugar que combina perfeitamente com a pureza do seu coração, com a sua bondade, com essa luz que sempre carregou dentro de si.
Quando você ainda estava aqui comigo, eu sabia que era nisso que você acreditava. Nós dois só não imaginávamos que Deus a chamaria tão cedo.
Mesmo assim, tenho certeza de que você está em paz.
Já eu… nem quero lhe contar como estou vivendo sem você. Sei que você ficaria brava comigo por me ver tão triste. Conheço esse seu jeitinho de querer cuidar de mim. Mas, meu amor… o que posso fazer? A saudade encontrou um lugar permanente dentro de mim.
Nessas cartas que escrevo todos os dias para você, tenho contado sobre a tristeza e sobre a solidão que agora caminham ao meu lado. Tenho seguido em frente porque preciso seguir, mas esta nunca foi a vida que sonhamos construir. Nada disso fazia parte dos nossos planos.
Neste fim de semana fui até a nossa casa, lá no litoral. O nosso cantinho… aquele lugar que escolhemos para viver a velhice de mãos dadas, vendo o tempo passar sem pressa.
Está ficando tudo tão bonito, meu amor… exatamente como você imaginou.
E, para que eu não erre nenhum detalhe, quem tem me ajudado é a nossa Isabella. Guardo com muito carinho aquela última conversa que vocês tiveram, quando você lhe contou como gostaria que aquele espaço ficasse. Pode ficar tranquila. Tudo será feito exatamente como você sonhou. É a nossa maneira de continuar realizando os seus sonhos, mesmo com a sua ausência.
Depois fui visitar minha mãe. Na semana passada ela precisou ficar internada por dois dias, e eu queria passar um tempo com ela.
Fomos àquela padaria que você chegou a conhecer. Tomamos um café delicioso, acompanhado de um pedaço de bolo, e ficamos ali por algum tempo.
Ela já não me reconhece mais por causa do Alzheimer. Mesmo assim, continua contando histórias. Muitas já não fazem sentido, mas eu as escuto com o mesmo carinho de sempre.
Enquanto ela fala, penso em você.
Penso em como tudo seria mais leve se você estivesse ali ao meu lado. Você saberia exatamente o que dizer, como me olhar, como transformar um momento difícil em um instante de paz.
Então continuo sentado, ouvindo minha mãe… e, ao mesmo tempo, ouvindo as lembranças de nós dois.
Este fim de semana também me pregou uma peça.
Na volta para São Paulo, nosso neto Heitor veio dormir comigo. Como sempre, quis brincar de bola. Eu, querendo aproveitar cada instante ao lado dele, aceitei.
Mas descuidei por um segundo, caí sobre o braço e acabei indo parar no hospital.
Depois dos exames veio a notícia: o braço trincou e será preciso fazer uma cirurgia.
Acho que a idade resolveu aparecer de vez…
Passei praticamente todo o domingo no hospital e, meu Deus… como senti sua falta.
Faltou você segurando minha mão.
Faltou sua voz dizendo que tudo ficaria bem.
Faltou seu sorriso para tornar aquele ambiente menos frio.
Faltou você cuidando de mim, como sempre cuidou.
Estar ali sozinho, cercado de tanta lembrança, foi uma das coisas mais tristes que vivi desde que você partiu.
Enquanto esperava pelos exames e pelos médicos, não consegui deixar de pensar em tudo o que você enfrentou durante a sua luta.
Cada corredor daquele hospital parecia me levar de volta aos dias em que eu a acompanhava, desejando poder trocar de lugar com você.
Ah, minha doce Evelaine… como eu gostaria de ter tido a coragem que você teve.
Você enfrentou a dor com uma serenidade que eu jamais conseguirei esquecer.
Você foi infinitamente mais forte do que imagina.
E assim passaram estes últimos dias.
Agora estou aqui. Mesmo afastado do trabalho por quarenta e cinco dias, continuo trabalhando um pouco. Talvez porque ocupar a mente seja a única maneira de fazer o tempo passar sem que a saudade me esmague completamente.
No fundo, continuo apenas esperando.
Esperando o dia em que Deus permitirá que eu a reencontre.
Até lá, seguirei escrevendo para você.
Porque o amor que sinto não conhece despedidas.
Te amo, minha doce Evelaine.
Continuo a te querer, continuo a te amar e continuo esperando por você.
Quando chegar a minha hora, espero encontrá-la com o mesmo sorriso que iluminou a minha vida.
Até esse dia…
Guarde um lugar para mim.
Eu te amo.
Sérgio Miranda é escritor e assessor na CET- Companhia de Engenharia de Trafego


