O jornalista produziu cinco documentários que relatam histórias das formações dos principais movimentos populares que auxiliaram na construção da maior capital do país. E afirma que tem muitos mais para produzir. Saiba mais:

por Fernando Aires

Ainda em 2004, ninguém suspeitava o que seria capaz de se fazer com um celular nas mãos. Aliás, celular que filma, fotografa, edita vídeo, armazena jogo, era coisa de outro mundo, mas um mundo já imaginado pelo então professor, documentarista e jornalista Antonio Lucio Rodrigues de Assis, que entusiasmado, afirmava aos alunos: “a convergência digital está prestes a acontecer e vai mudar a forma de ver e viver a vida”.

Dito e feito. Essa mesma vontade de retratar o mundo por diferentes ângulos, combinada ao jeito mais visionário –  que só os artistas possuem, incluindo os da sétima arte, rendeu a Antonio Assis projetos importantes em sua carreira. Já atuou, por exemplo, como diretor de Comunicação Externa da Câmara Municipal de São Paulo, além de colaborar ativamente com fóruns nacionais dedicados à democratização da mídia. Através dele, foram implementadas formas de engajar a população com o dia a dia da Câmara, por meio de newsletters, produção audiovisual e outras, aproximando o povo dos vereadores.  

Atuante há mais de duas décadas no ensino superior, Antonio foi professor de jornalismo em instituições como a Universidade Cruzeiro do Sul (onde coordenou o curso de Jornalismo), Universidade de Mogi das Cruzes (UMC), Osvaldo Cruz e Universidade Cidade de São Paulo – UNICID. Seus alunos, hoje, são assessores ou atuam em veículos próprios, na televisão e em jornais da grande mídia e mídia regional. 

Diretor de cinema e documentarista, o jornalista assinou esse mês, cinco filmes de sua direção e que contam, cada um, a história dos movimentos populares de São Paulo, que ajudaram a capital a se erguer tal como é hoje, mas principalmente, com a força  dos migrantes, que sem a qual nada seria possível.

Os documentários são: “Periferia Grande em Pedra Pequena”; “Saúde Pública, Substantivo Feminino”, “Dias de Luta, Dias de Glória”; “Bichos na Praça: Arte e Revolução no Território” e “Os Melhores Trabalhadores do Mundo”.

Em entrevista, o diretor Antonio Assis fala um pouco dos filmes e sua paixão em mostrar um mundo que as grandes telas de cinema não podem ignorar.

SP JORNAL: De onde vem a inspiração e a paixão com que conta suas histórias através da câmera?

Antonio Assis: Bem, isso é meio que uma missão para mim. Contar histórias do povo trabalhador, que é o que fiz nesses filmes. Eles representam a minha essência. Mesmo como professor de jornalismo, eu sempre levei essa ideia para a sala de aula, para o debate com os alunos, porque é importante ouvir e mostrar o povo, sempre. E cada vez mais a gente compreende que é fundamental que as histórias de pessoas anônimas, de pessoas do dia a dia, ganhem seu devido destaque e respeito, porque essas histórias transformam realidades. É, para mim, uma missão cumprida. É uma missão que a gente cumpre sempre com uma alegria que não tem tamanho. 

SP JORNAL: O que conecta os cinco documentários apresentados hoje?

Antonio Assis: Esses cinco filmes contam a história dos migrantes que chegaram na cidade de São Paulo nos anos 50, 60, 70 e particularmente depois dos anos 70, eles começaram a se organizar e lutar por direitos. A cidade de São Paulo recebia muitos migrantes nesse período e estava chegando muita gente de todas as partes do Brasil, mas principalmente do Nordeste. Ocorre que a cidade não acolhia eles muito bem, eles tinham todas as dificuldades de trabalho, de moradia, mas, eles resolveram lutar pelos direitos deles. Então, em vez de ficar reclamando, em vez de esperar ‘cair do céu’ as coisas, eles inovaram fazendo uma política que era totalmente nova. Por exemplo, havia a política dos políticos da época e tudo mais, mas esses migrantes quiseram se organizar de forma autônoma, independente e provocando uma grande surpresa na política local, porque de repente, eles despontaram com uma organização legítima, autêntica e autônoma dos bairros e das regiões. E que tinha que ser ouvida! Então, a conexão que existe entre esses filmes é justamente a luta de cada grupo de migrantes, que embora em Movimentos distintos, estavam todos em prol de uma cidade melhor e mais humana. Que é a São Paulo que temos hoje. E foi muito surpreendente isso.

SP JORNAL: E do que cada um desses filmes fala? Alguma história impactou mais?

Antonio Assis: No geral, foi muito impactante para todos nós. As histórias que esses personagens contam, são relatos que mexem com a gente. São inspiradores, são motivadores, mostram uma gente que sofreu, chorou, mas nunca, jamais se abateu. Cada filme traz um grupo específico, tem o das mulheres que trabalharam na área da Saúde, que construíram o movimento de Saúde, né, um Movimento Popular de Saúde; o outro filme fala da luta pela moradia, pessoas que arregaçaram as mangas para que milhares de famílias hoje pudessem ter um teto. São pessoas que passaram fome, frio, dificuldades extremas e se juntaram, se solidarizaram umas com as outras, pessoas que se organizaram e através dessa união, foram conquistando seus espaços e objetivos. Tem outro filme que conta a história do Itaim Paulista, que teve também um contexto muito forte de transformações sociais provocadas pelos migrantes, principalmente pelo movimento popular de arte, que revelou artistas e músicos aqui de São Miguel Paulista, todos em grande parte nordestinos ou, quando não, filhos de nordestinos e que também ocuparam a praça, fizeram coisas brilhantes e tudo de forma autônoma. Dá pra imaginar isso? E o quinto filme fala dos trabalhadores que criaram as escolas para formar esses operários que chegavam e que não tinham emprego e então, eles resolveram preparar esses trabalhadores. Então, são essas e diversas outras histórias que são contadas nesses filmes, as histórias dos migrantes que chegaram em São Paulo e mudaram a história da política da cidade, tornando-a ainda mais humana e com mais qualidade.

SP JORNAL: Quais desafios foram enfrentados para registrar histórias de pessoas muitas vezes “esquecidas” pela sociedade?

Antonio Assis: É uma dificuldade boa que eu vou dizer para você, porque nós temos muito material. Nós temos muitas histórias. Então, talvez tenha sido uma dificuldade selecionar essas histórias, né, conversar com alguns personagens, porque nós fizemos uma metodologia de fazer rodas de conversa. Através de uma roda de conversa, reunimos um número de personagens centrais em um tema, e então selecionamos algumas histórias ali contadas para o documentário. E foram registrados relatos dos mais diversos, engraçados, tristes, reflexivos, então foi uma dificuldade boa se debruçar diante de tudo isso, assistir, rir, chorar e selecionar o que iria compor os primeiros filmes. Foi um processo, onde tivemos que fazer escolhas, de quem seriam os personagens – obviamente não foram todos da roda de conversa, mas todos acabaram sendo personagens porque influenciam todo processo de filmagem e edição. Só para ter uma ideia, temos uma média de 60 horas de gravação, mais ou menos cinco terabytes de imagem, tudo em 4K de alta resolução. Uma boa parte foi utilizada nesses cinco filmes, cada qual com 40, 50 minutos e temos material e ideia de sobra para editar outros mais.

SP Jornal: Como equilibrar o olhar artístico com a responsabilidade social de retratar essas trajetórias?

Antonio Assis: Esse é o melhor desafio, é difícil, mas é um grande desafio, bem importante. Nós estamos construindo e transformando as histórias que aconteceram na cidade de São Paulo e também no patrimônio audiovisual brasileiro. É uma visão que lembra bem o estilo do diretor soviético Serguei Eisenstein, do movimento de arte de vanguarda russa, que vai contando histórias a partir dos próprios personagens das ruas, das casas, enfim, de cada canto. E ao mesmo tempo, tem o lado social, que mostra os impactos que aquelas pessoas geraram para a cidade. Não por finalidade estética, apenas, mas também por uma conscientização social. E isso tudo começa a fazer parte do nosso patrimônio audiovisual. Agora, por exemplo, esses cinco filmes estão sendo registrados na ANCINE e nos demais órgãos responsáveis, e em breve, vamos percorrer Mostras, Festivais e tudo mais. Na sequência, vamos para canais de televisão, para plataformas de exibição e a história do povo da cidade de São Paulo, que representa também a história do povo brasileiro, é que vai sendo contada, né? A arte nessa história toda está presente no lado mais bonito e sincero como a vida se faz. Ela nos desafia, sem dúvida, né? E sabe que, quando a gente começa a se aproximar dessas histórias, a gente começa a perceber o valor cultural, o valor artístico de tudo isso? Esse é um trabalho que nos orgulha bastante.

SP Jornal: Ainda existem lacunas importantes no atendimento à população migrante? O Brasil está preparado para acolher e integrar migrantes e imigrantes?

Antonio Assis: Eu penso que nós avançamos bastante, quando falamos de uma migração aqui dentro do país. Então, nós falamos de quem saiu do Nordeste e veio para São Paulo, de quem saiu do Sul, Centro-Oeste e tal, mas teve os imigrantes que vieram de outros países também, né? Que também sofrem. E nessa história que nós contamos, nós contamos dos migrantes que fizeram essa movimentação interna dentro do país, eu acho que a gente já avançou em algumas coisas, mas ainda precisa olhar com mais atenção para esses processos de movimentação, porque se trata de um direito humano, ir para onde quiser. A pessoa se movimentar é um direito garantido na Constituição e o país tem que atender melhor, responder melhor e acolher melhor essas pessoas que se movimentam, que saem de sua terra natal por algum motivo e vem para São Paulo, por exemplo, trabalhar na construção civil, em empresas de segurança, em empregos fundamentais para o crescimento da capital, né? E claro, muitos se dedicam tanto que assumem postos de comando também importantes. Então, eu acho que a gente precisa conhecer melhor esse cenário e corrigir ainda alguns aspectos, eu acho.