por Sérgio Miranda

Diário de uma saudade, que dói…

É incrível como certos lugares ficam eternamente marcados na nossa memória. Basta voltar a eles para que o tempo pareça desaparecer e o passado volte a existir, como se tudo tivesse acontecido há apenas alguns instantes.

Um desses lugares é o Centro de Pesquisa do IBCC – Instituto Brasileiro de Controle do Câncer, na Vila Mariana, em São Paulo. Durante um ano e meio estivemos aqui, todas as semanas, movidos pela esperança de encontrar uma cura. Ainda não sabíamos, mas estávamos vivendo a última etapa de uma longa e incansável luta.

Quando descobrimos que o câncer havia voltado, mesmo depois de dez anos da última batalha, fomos surpreendidos. Sabíamos que existia uma pequena possibilidade de isso acontecer, mas acreditávamos que aquele capítulo já havia ficado para trás.

Como da primeira vez, saímos em busca de todas as possibilidades de tratamento, certos de que venceríamos novamente.

A primeira etapa aconteceu na unidade do IBCC da Mooca. Durante um ano e quatro meses, você, minha querida Evelaine, recebeu uma sessão de quimioterapia por mês. Com uma coragem que sempre me emocionou, seguia rigorosamente cada orientação médica, mesmo quando o seu corpo dava sinais de que a doença avançava.

Foram meses muito difíceis. Apesar de fazermos tudo o que os médicos recomendavam, seu estado piorava lentamente, e os efeitos da medicação castigavam você de maneira cruel.

Depois de cada sessão, passava três ou quatro dias muito debilitada, deitada no escuro do nosso quarto, tentando reunir forças para enfrentar mais uma etapa. Mas, como tantas vezes aconteceu, você se levantava, respirava fundo e voltava a viver como se nada estivesse acontecendo.

Nesses intervalos de tranquilidade aproveitávamos para passear, viajar e criar novas lembranças. Vivíamos aqueles momentos agarrados à esperança de que, no final, tudo ficaria bem.

Como os resultados esperados não apareciam, sua médica nos apresentou uma nova possibilidade: participar de um estudo clínico promovido por um laboratório americano. Não havia garantias, mas havia esperança. E isso era tudo o que precisávamos.

Você passou pelos exames necessários para ingressar no grupo de pesquisa, mas foi reprovada na primeira tentativa. Seu organismo já estava muito debilitado.

A única alternativa foi retornar ao tratamento anterior, mesmo sabendo que ele já não estava surtindo o efeito esperado. Ainda assim, você jamais desanimou. Com uma disciplina admirável, continuou enfrentando cada sessão sem perder a dignidade e sem deixar que o desânimo encontrasse espaço no seu coração.

Trinta dias depois, sua médica tentou novamente sua inclusão no estudo. Dessa vez, você foi aceita.

O novo protocolo exigia visitas semanais ao Centro de Pesquisa do IBCC. Todas as terças-feiras passamos a viver praticamente o dia inteiro naquele lugar.

Nossa rotina começava às cinco da manhã, quando saíamos de casa. Chegávamos ao hospital por volta das seis e meia, às vezes um pouco mais tarde por causa do trânsito. Você seguia para a realização dos exames e, enquanto aguardávamos os resultados, descíamos até a lanchonete para tomar um café.

Estou exatamente aqui agora, sentado na mesma lanchonete, escrevendo estas palavras.

Nos primeiros meses você ainda conseguia tomar café comigo. Conversávamos, sorríamos e tentávamos esquecer, por alguns minutos, tudo o que estávamos enfrentando.

Com o passar do tempo, porém, você já não conseguia mais comer. Ainda assim, fazia questão de me acompanhar. Depois, veio um momento ainda mais difícil: você já não tinha forças nem para descer até a lanchonete e permanecia sentada na sala de espera.

Quando isso começou a acontecer, eu já não queria mais tomar café. Não fazia sentido sem você ao meu lado. Mas você brigava comigo, insistia para que eu fosse. Dizia que eu precisava me alimentar, que precisava me cuidar. Mesmo carregando tanta dor, continuava cuidando de mim.

Enquanto eu estava ali embaixo, os resultados dos exames ficavam prontos.

Quando eram favoráveis, você seguia para receber a medicação, um processo que durava cerca de quatro horas. Quando não eram, a médica suspendia a quimioterapia, e voltávamos para casa levando mais uma decepção no coração.

Quase sempre passávamos o dia inteiro naquele hospital.

No meio da tarde voltávamos para casa, e você ia descansar.

Hoje percebo que, por mais difíceis que aqueles dias tenham sido, eles eram infinitamente melhores do que os de agora. Naqueles dias, você ainda estava comigo.

Hoje volto a este lugar apenas para reencontrar as lembranças.

Ainda consigo enxergar você caminhando por estes corredores, sorrindo para as outras pacientes, conversando com os funcionários, espalhando sua simpatia, sua delicadeza e aquele charme que fazia parte de quem você era.

Mesmo enfrentando uma batalha tão injusta, nunca ouvi uma reclamação.

Você escolheu viver com coragem até o último instante.

E é assim que eu quero continuar me lembrando de você.

Sorrindo.

Linda.

Forte.

Minha doce Evelaine.

Sérgio Miranda é escritor e assessor na CET- Companhia de Engenharia de Trafego