por Pedro Hensel

Segundo o Livro Dimensão Mística da Torá, do Rabino Daniel Fisch, a parashá Vaierá, a quarta do livro Bereshit/Gênesis, mostra a extraordinária dedicação de Avraham/Abraão a mitzvá/mandamento/boa ação, da hospitalidade (hachnassat orchim).
Dus revela-Se a Avraham/Abraão e promete que, no futuro próximo, lhe nascerá um filho, Itzchak/Isaac, que dará continuidade ao seu legado.
Em seguida, a parashá relata a destruição de Sodoma e o nascimento de Itzchak, terminando com a história do sacríficio de Itzchak/Isaac, um símbolo da abnegação judaica.
No início desta parashá, porção semanal da Torá conta que Dus revelou-Se a Avraham Avinu/Abraão no terceiro dia após sua circuncisão (brit milá).
O Rashi explica que Dus lhe fez essa visita porque Avraham/Abraão estava doente em razão da sua brit milá/circuncisão.
Os comentaristas perguntam:
Como sabemos que Dus só visitou Avraham no terceiro dia?
Por que a visita só foi feita nesse dia?
Para responder a essas questões, introduziremos uma interrogação adicional feito pelo Maharshá.
Nossos sábios disseram: “Havia uma pedra preciosa milagrosa pendurada no pescoço de Avraham/Abraão. Todo enfermo que a via curava-se imediatamente.” Sendo assim, por que Avraham/Abraão adoeceu? Por que não usou a “pedra da cura” que possuía?
Para praticar uma mitzvá, mandamento/boa ação, devemos empenhar-nos desde a sua preparação até a realização propriamente dita. Além disso, é preciso empregar recursos naturais, não milagrosos, uma vez que o objetivo das mitzvot/mandamentos/boas ações, é atrair santidade para o mundo físico, de modo que a matéria se eleve e consagre.
Portanto, uma mitzvá/mandamento/boa ação cumprida por intermédio de um milagre não atinge o objetivo desejado de trazer Divindade para o plano material. Mesmo que haja um custo financeiro envolvido na prática de um mandamento (por exemplo, que se necessite comprar algo) ou que ele cause alguma dor (como acontece no brit milá/circuncisão) não devemos eliminar o aspecto natural e tentar realizá-lo de maneira milagrosa.
Agora podemos entender por que Avraham/Abraão não se beneficiou da “pedra mágica” que curava os enfermos por ocasião do seu brit milá/circuncisão e de fato adoeceu. Se o fizesse, ele não cumpriria o propósito da mitzvá/mandamento/boa ação, que é, como vimos, trazer santidade para este mundo de acordo com as leis da circuncisão, que está presente quando ela é feita de forma natural e autêntica.
Com isso esclarecemos também por que Dus só visitou Avraham no terceiro dia:
Nossos sábios afirmam que, quando visitamos um doente, aliviamos 1/60 de sua enfermidade. Se isso ocorre com visitas feitas por seres humanos, quanto mais quando o Próprio Dus é o visitante! Neste caso, com certeza, se efetuaria uma cura completa, como afirma o Ramban: “ Ao ver a presença Divina, Avraham/Abraão curou-se de todo.”
Portanto, a aparição Divina antes do terceiro dia dissiparia as dores naturais da mitzvá/mandamento/boa ação, impedindo que seu objetivo espiritual e místico fosse alcançado.
No terceiro dia, o circuncidado sara espontaneamente, de maneira que a presença de Dus não interferiria em nada.
Ainda a respeito da revelação Divina para Avraham/Abraão, o Rebe anterior (Rabi Yossef Itzchak) contou certa vez que seu pai, quando tinha quatro ou cinco anos, foi visitar o avô, o Tzemach Tzedek, em virtude de seu aniversário, a fim de receber sua benção.
Ao entrar, ele começou a chorar, dizendo que havia estudado no cheder (escola) que Dus Se revelou a Avraham. Então, indagou o menino, por que Dus não Se revelaria a ele também?
O Tzemach Tzedek lhe respondeu que, quando um judeu justo/tzadik) decide circundar-se aps 99 anos de idade, ele realmente merece a revelação Divina!

Essa é a grande força que esse relato nos transmite e a base de todos os preceitos. Pois, sem a consciência de que Dus criou o mundo, nenhum mandamento poderia ser estabelecido.
Pedro Augusto Franchini Hensel é bacharel em Direito e estudioso pesquisador.


