por Pedro Hensel

As Parashiôt Acharei-Mot- Kedoshim (Levítico 16:1-20:27), parte do “Código de Santidade”, é um dos textos mais complexos e debatidos no judaísmo em relação à questão LGBTQIAPN+, devido à presença de versículos tradicionalmente interpretados como proibição de relações homossexuais. No entanto, o diálogo contemporâneo, especialmente em vertentes liberais e progressistas, busca novas hermenêuticas (interpretações) focadas na inclusão.
Aqui estão os pontos principais sobre o tema:
1. O Texto Tradicional e sua Interpretação
Levítico 18:22 e 20:13: A parashá menciona: “Não te deitarás com um homem como se fosse mulher; é abominação” (18:22) e estabelece penalidades para isso (20:13).
A Abominação (Toevá): Tradicionalmente, esse termo foi usado para condenar relações entre pessoas do mesmo sexo ou gênero, posicionando-o como um dos versículos “clobber” (usados para atacar ou proibir).
2. Novas Interpretações e Hermenêutica Queer
Estudiosos e comunidades progressistas propõem releituras, argumentando que o contexto original era diferente do conceito moderno de orientação sexual:
Foco no Incesto e Pederastia: Alguns intérpretes sugerem que o versículo condena o incesto masculino ou relações de poder (pederastia), estupro, dominação, humilhação masculinas, pedofilia e a promiscuidade, urgia homoafetiva ritual entre sacerdotes nos templos pagãos, no santuário, como forma de louvor e adoração, ou algo que o valha,comuns no antigo Oriente Próximo, e não o amor homoafetivo consensual, conforme o Chumash Plaut:A Torá Um comentário moderno, a Bíblia do Judaísmo Reformista/Progressista.
Tradução e Contexto: A frase hebraica “mishkave isha” (deitar-se com um homem como com uma mulher) pode ser interpretada como a proibição de um homem assumir um papel passivo específico, ou focar especificamente em relações incestuosas masculinas.
Reinterpretação de “Abominação”: Argumenta-se que toevá refere-se mais a práticas rituais idolátricas estrangeiras do que à orientação sexual em si.
3. O Princípio da Santidade (Kedoshim)
A parashá começa com “Sede santos, porque Eu, o Senhor vosso Deus, sou santo” (19:2). A santidade é vista como uma prática contínua através de mitzvot (mandamentos, boas ações, preceitos,caridade) de justiça social, amor ao próximo e ao “estrangeiro”.
Para muitos judeus e judias, o mandamento de “amarás o teu próximo como a ti mesmo” (19:18) supera interpretações literais de proibição, promovendo a inclusão de pessoas LGBTQIAPN+ na comunidade.
4. Posicionamento no Judaísmo Atual
Judaísmo Ortodoxo: Geralmente mantém a interpretação tradicional de que as relações sexuais masculinas do mesmo sexo são proibidas, embora haja um debate crescente sobre como acolher indivíduos LGBTQIAPN+ sem validar o comportamento.
Judaísmo Conservador/Masorti e Reformista: A maioria dessas congregações aceita e inclui ativamente pessoas LGBTQIAPN+, casamentos igualitários e ordenação de rabinos queer, reinterpretando o texto dentro de um contexto moderno de igualdade, inclusão e dignidade.
Mas se as leis são produto do seu tempo, qual seria a validade das leis da Torá na contemporaneidade? Talvez a Torá tenha chegado até os nossos dias com a importância que a reveste, não pelo seu texto em si. Talvez a letra da lei seja o que tenha prazo de validade, circunscrita a uma época e a uma sociedade determinada. Pode ser que o que persista e subsista no tempo seja o espírito das leis, apreendido a partir de um método interpretativo proposto pelo judaísmo rabínico.
No Judaísmo Progressista/Reformista, conforme o grande Livro Judaísmo Acessível:Um Guia dos valores e práticas do judaísmo moderno, do grande Rabino Jacques Cukierkorn; há os princípios do Judaísmo igualitário:homens e mulheres possuem os mesmos direitos espirituais, Judaísmo inclusivo:são dadas as boas-vindas a pessoas independentemente da religião professada, sem querer convertê-las ao Judaísmo; independente da cor, etnia, origem social, renda ou o que quer que seja, todos pertencendo a um corpo único, inclusivo, uno com o Eterno. E Judaísmo Pluralista:que recebe e reflete sobre ideais judaicas e não-judaicas, em prol do conhecimento e engrandecimento espiritual de seus membros, sem perder os laços com a Bíblia Hebraica-Tanakh e nossa promessa junto ao Eterno.
No Judaísmo Progressista/Reformista há o costume de criticar a Torá ou a Bíblia Hebraica naquilo que hoje ela é desumana, ultrapassada, ressignificando a Torá numa linguagem dos dias de hoje, conforme o nosso dia-a-dia ocidental.
A discussão sobre Kedoshim no contexto LGBTQIAPN+ reflete o esforço de conciliar leis ancestrais com os valores éticos, humanos e sociais de inclusão, dignidade e igualdade no mundo contemporâneo.



