por Sérgio Miranda

Diário de uma saudade que insiste em doer…
Ontem, no feriado de 21/04, tentei, de alguma forma, continuar vivendo — seguindo um roteiro que teria sido tão natural, tão leve… se você estivesse aqui comigo, minha querida Evelaine.
A igreja da qual fizemos parte organizou um passeio a um sítio. Em outros tempos, éramos nós que estávamos à frente de tudo. Você, meu amor, sempre tão presente, tão dedicada… ajudando em cada detalhe, com esse coração generoso que era só seu. E eu ali, ao seu lado, porque juntos nós fazíamos tudo ganhar mais sentido.
Com o passar dos anos, fomos nos afastando — primeiro pela fragilidade que a doença te trouxe, e depois… pelo silêncio imenso da sua partida.
Ontem, decidi ir. Talvez na esperança de te encontrar em algum gesto. Mas o que encontrei foi um vazio difícil de descrever.
Senti-me deslocado, sem cor, sem riso. Amigos tentaram me distrair, com carinho sincero… mas não demorou nem duas horas para que as lágrimas me encontrassem. Afastei-me, em silêncio, enquanto ao meu redor a alegria florescia — principalmente nos casais que, um dia, caminharam ao nosso lado. E eu ali… sozinho entre muitos, mas profundamente só sem você.
Saí sem me despedir. Não queria interromper a felicidade de ninguém com a minha dor. Segui até o sítio da minha tia, tão próximo dali… e tão profundamente nosso. Foi lá que vivemos nossa lua de mel, lembra? Quantas histórias aquele lugar guarda… quantas risadas, encontros, abraços com a família e amigos.
Nas últimas vezes em que estivemos ali, éramos apenas nós dois — já em um tempo mais silencioso, onde a doença havia diminuído suas forças… mas nunca o brilho do seu olhar quando me via.
Fiquei ali, perdido em lembranças… ouvi, na memória, o som das risadas, o movimento da piscina, os passeios pelo pomar. E também revivi a calmaria doce daqueles primeiros dias inteiros com você, quando o mundo parecia caber apenas em nós dois… quando o tempo era só nosso… e fazíamos amor com toda a intensidade que dois jovens apaixonados podiam sentir.
Ah, meu amor… aquele lugar ainda guarda você em cada canto. E, de alguma forma, me abraça com tudo o que fomos.
Na volta para casa, parei naquela pequena cidade vizinha… no mesmo lugar onde costumávamos lanchar. Sentei-me onde sempre ficávamos, pedi as mesmas coisas… e, no final, escolhi o seu sorvete preferido. Ali também você esteve comigo. Eu quase pude te ver… quase pude te tocar. E ali, mais uma vez, chorei.
Assim terminou o meu dia… com uma visita aos nossos netos e à nossa filha caçula — pequenos alívios que ainda aquecem meu coração, mesmo que por instantes.
Mais tarde, já em casa, escrevi um poema para você e o deixei registrado neste diário. Desta vez, resolvi também gravar minha voz — mesmo imperfeita, mesmo simples e um pouco gripado — como uma forma de atravessar o silêncio e te alcançar.
É assim que continuo falando com você…
Porque, minha doce Evelaine, o amor que sinto não conhece ausência, nem tempo, nem despedida.
Eu te amo.
E sempre te amarei.



