Por Sérgio Miranda

Há uma canção muito conhecida que traz em seus versos uma verdade que hoje habita em mim: “…das lembranças que eu trago na vida você é a saudade que eu gosto de ter. Só assim sinto você bem perto de mim outra vez.”
Sentir uma saudade que se sabe que logo será acolhida e realizada é um acalento doce. Por muito tempo, minha doce Evelaine, eu pude viver essa saudade sabendo que o ponto de chegada seriam os teus fortes abraços e os teus beijos demorados. Guardo cada um desses reencontros com muito carinho.
Houve um tempo em nossa história em que os dias eram ditados pelas estradas. Como supervisor de vendas de uma distribuidora de cosméticos, minha rotina era acompanhar vendedores pelo interior de São Paulo. Eu partia na segunda-feira e só refazia o caminho de volta na noite de sexta ou nas tardes de sábado. Lembro-me de que eu sempre voltava voando; o carro parecia pequeno perto da minha pressa de chegar a você. Foi um período desafiador, e a distância de você e das crianças pesava no peito — tanto que, com os olhos de hoje, eu jamais aceitaria aquela rotina.
Mas o amor encontrava seus caminhos. Todas as noites, ao fechar a porta do quarto de algum hotel, o meu dia só fazia sentido quando eu ligava para você. Era o nosso momento de jogar conversa fora, de ouvir sobre o teu dia, de saber das crianças e de, em cada palavra tua, diminuir um pouquinho a distância que nos separava.
E como eram divinos os nossos fins de semana! Fazíamos amor de um jeito tão nosso, tão especial, que o tempo parecia correr para nos roubar aqueles instantes. Aproveitávamos cada segundo como se o mundo lá fora não existisse.
Mais tarde, os caminhos me levaram ainda mais longe. Minas Gerais, Rio de Janeiro, Espírito Santo, Goiás, Distrito Federal… As obrigações profissionais insistiam em me afastar de você. Por isso, sempre que surgia uma brecha, eu dava um jeito de levar você e as crianças comigo. Era a minha forma de fundir o meu mundo ao teu e manter minha família por perto.
Guardo com infinito carinho uma lembrança que já eternizei nestas páginas. Certa vez, eu vinha de Curitiba com destino a Águas de Lindoia para um evento de alguns dias. O tempo era escasso, o cansaço era real, mas a vontade de te ver era maior. Decidi passar em casa sem avisar, naquele tempo ainda não tínhamos telefone residencial. Eu tinha pouco menos de uma hora, mas era o suficiente para respirar o teu ar e matar a saudade.
Quando abri a porta da sala, no início daquela noite, as crianças faziam uma festa na sala ao me ver. Você ouviu o alvoroço e veio da cozinha. Ao me encontrar ali, parado na sala, você me deu o sorriso mais lindo que já vi em toda a minha vida. Se eu pudesse congelar o tempo, seria naquele exato instante; aquela seria a fotografia mais preciosa que eu teria de você hoje, meu amor. Depois do sorriso, veio o teu abraço.
Deixei as crianças entretidas e, segurando a tua mão, guiei você pelas escadas até o nosso quarto. Com a tua delicadeza, o teu charme sutil e uma sensualidade que sempre me desarmou, você aceitou o meu convite. Tivemos um encontro rápido, mas transbordante de paixão, como dois adolescentes que namoram escondidos, correndo contra o relógio. Como foi maravilhoso aquele momento, minha doce Evelaine.
Ao sair, meu coração ficou partido ao meio, dividido entre o dever do trabalho e o desejo incontrolável de permanecer ao teu lado. Mas o destino nos reservava um desfecho ainda mais bonito para aquela semana. Ao retornar daquele compromisso, dias depois, cheguei em casa por volta das onze da noite. Mesmo exausto da maratona, olhei para você e, num impulso de puro improviso, disse para arrumar as malas e agasalhar as crianças porque iríamos voltar juntos para Águas de Lindoia naquela mesma hora, um lugar que você ainda não conhecia. E ali vivemos dois dias mágicos.
Mal sabíamos nós que aquele improviso se transformaria no nosso ritual sagrado. Por 28 anos seguidos, retornamos àquela mesma cidade, ao mesmo Hotel Fredy. Escrevemos nossa história naqueles quartos e nas piscinas até julho de 2023, apenas cinco meses antes de você partir, quando estivemos lá juntos pela última vez.
“Das lembranças que eu trago na vida você continua sendo a saudade que eu gosto de ter. Só assim tento sentir você bem perto de mim outra vez.”
Hoje, Evelaine, a saudade mudou de tom. Ela já não pode ser saciada com a pressa da estrada, e o nosso reencontro físico não é mais possível. Todas as noites, ao abrir a porta de casa e encontrar o silêncio, sou relembrado da tua ausência. Mas saiba que a tua luz continua acesa em mim. Como sinto a tua falta, meu amor… Como é eterna a saudade de você, minha eterna e doce Evelaine.
Sérgio Miranda é escritor e assessor na CET- Companhia de Engenharia de Trafego



