Em tempos onde muito se fala em Deus, milhares de pessoas passam frio e fome nas ruas, e independente de terem ou não causado esse fim, o ser humano continua tão egoísta como há 2 mil anos. Não poderiam todas as igrejas acolher essas pessoas em dias frios, como a maior prova de caridade e humanidade?
por Fernando Aires

É impossível permanecer indiferente ao ver alguém deitado na rua, sujo, talvez doente, sem qualquer tipo de abrigo, proteção ou mesmo alimento. E raramente, essas pessoas são encontradas sem a companhia de um cachorrinho ao lado. O cachorrinho, macho ou fêmea, geralmente é dócil, preocupado(a) em proteger o tutor a qualquer custo, atacando a primeira pessoa que se aproxima mesmo que esta queira apenas entregar algum tipo de alimento. O bichinho é fiel, é amigo, é solidário.
Uma fidelidade e um amor que faz com que o ser humano fique pequenininho, diante daquele “animal”. Quantos de nós somos fiéis ao próximo na mesma proporção? Fidelidade que muitos não possuem nem com os pais, nem com os filhos, com os irmãos e muito menos com o próximo. Sem falar nos bichos domésticos que são “abandonados” a torto e a direito, porque ficaram velhos, doentes e dão muita despesa.
Nessas horas, os bichos ensinam aos homens como deveriam ser mais evoluídos. Esses cidadãos de rua, por exemplo, tem nos seus “amigos de quatro patas” as melhores companhias. Dividem pão, água, vestimenta. Até mesmo o conforto que encontram, seja uma almofada ou colchão velho. Tudo entre eles, é dividido.
E claro, entre ir para um abrigo receber conforto deixando seu amigo para trás e permanecendo ali, no frio, na sujeira com seu fiel companheiro, a maioria escolhe a segunda opção. Se um morador de rua, encontra a outro com fome ou frio, o pouco que tem, lhe dá.

Se analisarmos bem não é um grande exemplo de humildade e generosidade? De tamanha fidelidade e gratidão?
Lembra aquela parábola da Viúva e do Vintém, que Jesus contou, onde a mulher que nada tinha, deu tudo que possuía e portanto foi a que mais praticou a caridade no templo. Porque pregar, sem servir, é como jogar sementes ao vento sem regá-las em solo fértil.
A verdade, é que muitos bichos ensinam o ser humano a ser gente e muita gente, não chega às patas desses animais. Muitos mendigos dão exemplo de humildade e gratidão. Talvez não sejamos fiéis, nem a nós mesmos quando deixamos de seguir aquilo que acreditamos para simplesmente parecer o que os outros querem que sejamos.
É vergonhoso se preocupar com o próximo. É ser “tonto”, “bobão”. Ninguém quer ser tonto na roda de amigos.
Por tudo isso, a indiferença com o próximo, atualmente, é gigantesca. No Tatuapé, por exemplo, considerado outrora “bairro nobre” de São Paulo (e que de nobre não tem nada), em apenas um quarteirão, foram encontrados mais de oito pessoas dormindo nas ruas, sujas, sem qualquer tipo de proteção ou abrigo.
Isso em um único sábado, dia 23/05, onde a temperatura chegou à 12º.
Dormindo em bancos de praça, nas esquinas, nas marquises dos prédios da rua Antonio de Barros, Cesário Galero, Miguel Vieira Ferreira, Celso Garcia, e por aí vai. Essas pessoas estão lá, sozinhas, sem qualquer tipo de ajuda. Uma ou outra pessoa consegue, às vezes, dispor de algum tempo ou de alguns recursos para poder ajudar em tempos de frio, onde a sensação térmica é ainda mais baixa.
Essas pessoas tentam se aquecer como podem e muitas vezes, acabam morrendo de frio. Pior ainda, quando tomam uma “branquinha” para se aquecer e morrem de hipotermia. Seus bichinhos ficam agarrados neles, assim também buscando um cantinho para se esquentar, sem comida, sem coberta, sem nada.

E então ambos enfrentam o abismo da noite, num frio digno de um filme de terror. Onde está a humanidade que não vê e dorme quentinha, indiferente a eles? Os católicos, evangélicos, espíritas, umbandistas, judeus e tantos outros que dizem seguir a um Deus, mas que não temem essa “cobrança” lá na frente.
Por mais que cada ser humano seja dono de seu destino e de seu próprio caminho, é impossível permanecer indiferente a toda essa situação. E é nesses momentos, que se chega a uma dúvida: as igrejas servem apenas para dar a palavra ou também para praticá-la?
São tantos os templos espalhados pela capital, igrejas que possuem CNPJ, sendo comparadas à empresas, com diretorias, cargos, uniformes. Não poderiam ceder seus espaços em dias frios para que o próximo fosse acolhido com seus bichinhos e tratado como ser humano em vez de lixo?

Talvez nas igrejas, as famílias se unissem mais na caridade que poderiam praticar. O pai ou mãe encontrasse mais tempo perto do filho ou da filha, estendendo juntos a mão a quem precisa. O marido mais perto da esposa, descobrindo nela a companheira por quem se apaixonou e vice-versa. Talvez ali, outras pessoas pudessem se ressocializar, compreendendo que a vida não é feita do passado, mas do que se faz agora e se planta pro futuro.
Quantas dessas pessoas não precisam desse amparo? Não poderiam regressar às suas famílias, encontrar coragem para se erguer depois do tombo?
Isso é caridade, não adianta rezar um terço ou um louvor, deixar oferenda ou aplicar passes, se olhar para essas pessoas no chão e permanecer alheio. Tal qual fizeram os líderes religiosos que passaram pelo homem agredido no chão, por dois bandidos, e o deixaram lá à própria sorte, até que o mesmo fosse salvo pelo bom samaritano.
É fato que não podemos salvar o mundo inteiro, afinal de contas, todos nós temos nossas próprias preocupações. Nossas próprias situações difíceis a que somos obrigados a enfrentar dia após dia. Muitas vezes sem ter com quem contar, com quem desabafar, seguimos em frente e talvez essas situações nos deixem um pouco frios diante desse cenário tão caótico e tão emblemático que vivemos ainda hoje, em pleno século XXI.

Contudo, vemos com frequência, principalmente em dias frios, igrejas de todos os tipos, de todos os caminhos, com as portas fechadas – com raras exceções. E aí a gente pergunta: será que Jesus Cristo manteria essas portas fechadas diante dessas pessoas que estão sozinhas nas ruas, abandonadas com seus bichinhos sem comida e com frio?
Poderiam ser nossos pais, mães, filhos, netos, maridos, esposas, enfim, poderiam ser um de nós, até mesmo eu. Se abrissem suas portas, não seriam essas igrejas as verdadeiras portas de salvação para essas pessoas e para todo ser humano que deseja evoluir?



