por Pedro Hensel

A Parashá Behaalotechá (Números 8:1-12:16) segundo o Livro Devarêcha Yair,o começo desta parashá menciona a mitsvá/mandamento/boa obra/boa ação/caridade especial que Aharon/Aarão e todos seus descendentes – os cohanim/sacerdotes receberam:acender a Menorá todos os dias, no Templo.
A parashá em seguida descreve o processo a ser feito, para que os leviyim/levitas inaugurem seu serviço sagrado.
Prossegue narrando que algumas pessoas vieram reclamar para Moshê que não puderam fazer o Corban Pêssach por estarem impuras na época.
Sendo assim, Dus dá a mitsvá de Pêssach Sheni-Segundo Pêssach: um mês depois de Pêssach, há uma segunda chance para aqueles que não conseguiram chegar a tempo no Beit Hamikdask (Templo) ou para aqueles que estavam impuros na ocasião. No dia 14 de Iyar, então, podem fazer o sacrifício de Pêssach, comê-lo com matsá/pães ázimos e maror/ervas amargas e fazer um Sêder/jantar festivo religioso.
A Torá instrui que os judeus deverão acampar no deserto e, conforme a movimentação da Nuvem da Glória – se ela se deslocar ou parar- eles saberão quando devem levantar acampamento e quando devem acampar e permanecer naquele local.
Dus ordena que Moshê/Moisés faça trombetas de prata (chatsotserot) para tocá-las ao conclamar os chefes do povo, para chamar todo o povo ou para anunciar viagem. A Torá acrescenta que as trombetas devem ser tocadas também quando houver uma guerra ou um momento de aperto e sofrimento, assim como em ocasiões festivas. Nas festas e em Rosh Chôdesh/ início do mês) é preciso tocar as trombetas no momento de trazer as oferendas no Templo.
Depois, a Torá descreve a primeira viagem que o povo hebreu empreendeu no deserto, detalhando todo o processo de levantar o acampamento, em que ordem viajaram, quem ia à frente de quem – tudo conforme Dus ordenara.
Na continuação, a Torá relata que o povo reclama desejar comer carne e Dus lhes diz que terão carne, mas a comerão até que saia pelos seus narizes. Nesta ocasião, Moshê se queixa a Dus, que não aguenta mais liderar o povo sozinho. Dus ordena que ele reúna 70 anciãos. Então Dus faz pairar sobre eles Seu espírito e eles profetizam, até mesmo dois deles que não se encontram à volta do Mishcan/Tabernáculo/Templo portátil: Eldad e Medad. Dus traz um enorme bando de codornas e o povo as devora, sendo que muitos morrem. O lugar passa a se chamar “Kivrot Hataavá”- “Sepulturas do Desejo”. De lá, dirigem-se a um local chamado Chatserot.
A parashá termina contando que Aharon e Miriam falam algo que não deveriam dizer sobre Moshê. Miriam foi acometida com tsaráat “ lepra”. Moshê reza por ela e ela é curada. Todo o povo espera Miriam ficar curada e voltar ao acampamento antes de seguir viagem.
A Torá diz” Quando vocês saírem para a guerra em seu país contra o inimigo que os oprime, vocês tocarão as trombetas e serão lembrados perante Dus e serão salvos de seus inimigos. No dia de alegria e de festividade e nos Rashê Chodashim (início do mês), vocês tocarão essas trombetas junto de seus sacrifícios… como lembrança perante Dus…” (Bamidbar/Números/No deserto 10:9-10)
Há uma mitsvá de tocar trombeta em dois momentos opostos:de sofrimento, guerra, aflição e, por outro lado, em dias festivos. Qual é o sentido de tocar a mesma sirene que se usa em momentos alarmantes e de perigo, como num incêndio, em um dia de festa? Por que as mesmas trombetas devem ser tocadas em dois momentos tão antagônicos?
O Rambam (Maimônedes), em seu livro Mishnê Torá (nas leis sobre Jejuns), diz: “ É uma mitsvá ativa da Torá, clamar e soar as trombetas sobre qualquer sofrimento que advém ao público, conforme escrito na Torá: ` Quando vocês saírem para a guerra em seu país contra o inimigo que os oprime, vocês tocarão as trombetas´. Ou seja, a qualquer sofrimento que advenha sobre vocês como seca, gafanhotos e semelhantes, “gritem” por eles (façam um dia de orações e súplicas) e toquem as trombetas e os shofarot.
Essa conduta é um dos caminhos da teshuvá/arrependimento/retorno, pois, quando advém um sofrimento e o povo suplica e toca trombetas e shofarot,todos reconhecerão que aquele padecimento adveio devido a suas más condutas, conforme escrito em Jeremias/Yirmeyáhu): “Seus pecados causaram tudo isso´. e isso fará com que o sofrimento seja retirado deles”.
Ou seja: as trombetas que eram tocadas em momento de sofrimento estavam anunciando:não pensem que o que está acontecendo é um acidente. Não se trata de crise do petróleo, crise da bolsa, conjuntura política, tampouco qualquer justificativa que as pessoas gostam de atribuir aos acontecimentos. Se o inimigo veio atacá-lo, é porque Dus está por trás. Se a bolsa cai, Dus a fez cair. Agora é o momento de parar e refletir por que será que Dus está agindo desta maneira. Devemos estar fazendo algo errado para isso ter ocorrido.
Este é o motivo pelo qual as mesmas trombetas são soadas em ocasiões de alegria. Em momentos de júbilo, também devemos nos lembrar Quem está por trás deles e por que Ele os trouxe agora. Infelizmente, quando há um sofrimento, as pessoas logo tendem a questionar: “Por que Dus está fazendo isso comigo? Será que mereço?” Já quando acontecem coisas boas, ninguém questiona o porquê e se de fato merece, atribuindo tudo à sua boa sorte, esperteza, acaso, etc. Diz a Torá: por intermédio das trombetas, você deve lembrar em ambas as ocasiões que é Dus Quem as trouxe – tanto as difíceis quanto as de alegria.
Mais ainda:se o indivíduo reconhece a mão de Dus nos bons momentos, não haverá necessidade de maus momentos para que se lembre Dele. Quando foi a última vez que paramos para meditar sobre todas as maravilhas que Dus nos faz diariamente?
O dia de nossa alegria são todos os dias. Pelo menos assim deveria ser. A Torá nos dá uma lição por entrelinhas:devemos lembrar de Dus tanto nos momentos difíceis, sabendo que Ele deseja nos testar, quanto nos dias de festividade, recordando que tudo vem Dele.
Contudo, os dias comuns não devem ficar para trás.
Nosso dias a dia é chamado de yom simchatchem.
Devemos ficar felizes com tudo o que Dus nos proporciona:saúde,cônjuges, filhos, boa família, sustento, amigos, alegrias. Devemos encarar tudo de forma positiva e agradeçamos a Dus cada momento.
Se, nos dias de alegria( os dias comuns) e nos dias de festividade soubermos que é Dus QUe nos proporciona todas estas coisas boas, Ele com certeza não precisará nos dar um “puxão de orelha” para que nos lembremos Dele.

Pedro Augusto Franchini Hensel é bacharel em Direito e estudioso pesquisador.


