por Sergio Miranda

Estou aqui, em nosso quarto, deitado na cama que um dia foi abrigo, refúgio e paz. Hoje, porém, ela já não me aquece nem me consola. Deito-me esperando que o sono tenha piedade de mim, mas ele nunca chega. Quem vem me visitar, noite após noite, são as lembranças que guardo de você, minha amada Evelaine.

E eu me entrego a elas.

Fico aqui por horas, com os olhos inundados de lágrimas, revivendo momentos que o tempo jamais conseguirá apagar. São lembranças belas, perfeitas, porque em todas elas você está presente. Em cada sorriso, em cada gesto, em cada olhar. O problema é que as lembranças voltam, mas você não. Você partiu para sempre e, ao partir, levou consigo uma parte de mim. E não me ensinou como continuar vivendo sem o seu amor.

Desde então, sinto-me como um barco à deriva em um oceano sem fim. Sem rumo, sem porto, sem vento que me conduza. Apenas flutuando entre dias vazios e noites intermináveis.

Para onde posso seguir, meu amor?

Que destino devo desejar, se não existe caminho que me leve até você?

Quando você partiu, o tempo parou para mim. O mundo continuou girando, as pessoas continuaram vivendo, mas eu permaneci preso naquele instante em que te perdi. Procurei a solidão como quem procura um esconderijo para a própria dor. Chorei durante dias, semanas, talvez meses. E quanto mais chorava, mais a saudade parecia crescer dentro de mim.

Então tentei preencher o vazio.

Passei a trabalhar ainda mais. Aceitei novos desafios, assumi mais responsabilidades, ocupei cada minuto do meu dia na esperança de não ter tempo para sofrer. Na maioria das manhãs começo antes das seis horas e sigo até a noite, quase sem parar. E, quando termino, ainda me dedico a outros projetos, como sempre fiz.

Mas hoje percebo o quanto me arrependo.

Ah, minha Evelaine… como me arrependo de todas as vezes em que permiti que compromissos me roubassem momentos ao seu lado. Como me arrependo de ter acreditado que haveria sempre mais tempo.

E talvez eu esteja repetindo o mesmo erro agora.

Talvez eu me ocupe tanto apenas para fugir daquele instante cruel em que volto para casa e preciso encarar a sua ausência. Talvez eu trabalhe tanto porque tenho medo de encontrar você apenas nas lembranças.

E como isso dói.

Como é difícil existir quando a tristeza se torna companhia permanente.

Às vezes caminho pelas ruas do centro de São Paulo. As avenidas estão cheias de vida, os prédios se erguem imponentes, as pessoas seguem apressadas em direção aos seus destinos. Mas eu não vejo nada disso. Meu olhar permanece perdido em algum lugar entre o passado e a saudade. Minha cabeça baixa não me permite enxergar o mundo ao redor. E meus olhos, sempre marejados, insistem em derramar lágrimas que parecem não ter fim.

Volto ao trabalho, cumpro minhas responsabilidades, faço o que precisa ser feito. Mas não tenho pressa de ir embora.

Porque voltar para casa é voltar para a falta que você me faz.

Quando a noite chega, sigo devagar. Devagar demais. Se estou dirigindo, quase atrapalho o trânsito. Se estou no transporte público, viajo por estradas invisíveis construídas pelas

minhas memórias. E, em muitas noites, procuro um lugar silencioso onde não preciso falar, nem explicar nada a ninguém. Um lugar onde posso simplesmente permanecer em silêncio, tentando afogar uma tristeza que não se deixa afogar.

Então a madrugada se aproxima e não há mais para onde fugir.

Sou obrigado a voltar para nossa casa.

E é nesse momento que percebo que as lágrimas, que imaginei ter deixado para trás, retornam. Elas me acompanham desde o primeiro passo que dou pelo portão. Como se a própria casa sentisse sua falta e chorasse comigo. Tem sido assim todos os dias, sem uma única exceção, desde que você se foi.

Ali, cada canto guarda um pedaço da nossa história.

As lembranças correm ao meu encontro. Estão nas paredes, nos móveis, nos corredores. Estão em cada espaço onde um dia existiu o som da sua voz.

E em todas elas, você está sorrindo.

Quando finalmente consigo chegar ao nosso quarto, encontro você naquele totem que mandei fazer com sua fotografia. Seus olhos continuam brilhando. Seu sorriso continua iluminando o ambiente. Por um instante, quase consigo acreditar que você ainda está aqui.

Quase consigo sentir sua presença.

Quase consigo ouvir sua voz.

Mas então a realidade me alcança outra vez.

E eu me perco.

Já não sei quem sou sem você. Já não sei o que desejo da vida. Então apenas fico ali, olhando para você, como faço agora enquanto escrevo estas palavras.

Como eu queria que você estivesse aqui, minha Evelaine.

Como eu queria poder deitar minha cabeça no seu travesseiro, fechar os olhos e dormir.

Dormir para sonhar com você.

Porque, se pudesse sonhar com você todas as noites, talvez eu não precisasse mais acordar. Para quê acordar? Para perder você outra vez? Para reviver diariamente a dor da sua ausência?

Se um dia fui o homem mais feliz do mundo por ter você ao meu lado, por sentir seus braços me envolvendo, por enxergar seu sorriso ao amanhecer, hoje sou apenas alguém tentando sobreviver à sua falta.

E mais uma vez me encontro aqui.

Nesta cama.

Neste quarto.

Nesta casa.

Nesta vida.

Sem você.

Sem seus sorrisos.

Sem seu olhar doce.

Sem seus carinhos.

Sem o amor que dava sentido aos meus dias.

Minha doce Evelaine…

E a saudade não passa.

Assim como esta madrugada que parece não ter fim.

Sérgio Miranda é escritor e assessor na CET- Companhia de Engenharia de Trafego